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Spanish — Liderança para uma Cultura de Igualdade em Tempos de Perigo e de Paz.txt
Diante do cenário de um mundo que está sofrendo profunda mudança, há um crescente reconhecimento do papel indispensável que as mulheres em posições de liderança desempenham. No início da pandemia do coronavírus, observou-se que nações em que mulheres contribuíram de forma mais proeminente na liderança da sociedade geraram um grau de estabilidade em uma diversidade de indicadores de curto prazo, incluindo saúde pública e segurança econômica. No âmbito de comunidade, as mulheres continuam a desempenhar um papel indispensável — e frequentemente lideram — no cuidado com os doentes, educação dos jovens, atendimento aos necessitados e sustentando a estrutura social e econômica de maneira geral. Nunca esteve tão claro o quanto a humanidade se beneficia quando adota e promove a liderança de mulheres em todos os níveis da sociedade, seja na família ou no povoado, na comunidade ou no governo local, na empresa ou na nação. Alcançar a plena medida dessa capacidade para enfrentar os desafios contemporâneos exigirá o movimento de pelo menos duas frontes: aumentar a presença das mulheres nos papéis de liderança e nos assuntos da sociedade, e aplicar mais ampla e consistentemente as qualidades que elas tendem a empregar no processo de resolução de problemas e de tomada de decisões.

Qualquer consideração quanto à participação de mulheres na vida pública inclui uma reavaliação dos modelos de liderança. Momentos de perigo intenso na vida da humanidade requerem líderes com mente bem treinada, capazes de se valer do poder da ciência, bem como de princípios morais e éticos, e que consultem diversos grupos representativos de pessoas experientes em áreas pertinentes. Essas lideranças harmonizariam diferentes vozes e promoveriam um senso de empreendimento comum. Resistindo à sedução de poder, elas seriam caracterizadas por integridade, credibilidade e firme adesão à ação baseada em princípios.

Naturalmente, esses atributos podem se manifestar em líderes, independentemente do sexo, e políticas feministas e de igualdade de gênero podem produzir resultados benéficos, não importa quem as promova. No entanto, está se tornando claro que o aumento da participação de mulheres na vida da sociedade fortalece essas qualidades como um aspecto da cultura de liderança — e não apenas como características pessoais de cada líder. Qualidades de liderança frequentemente associadas à masculinidade — assertividade, determinação e competitividade, por exemplo — têm se mostrado limitadas ou contraproducentes quando não temperadas com outros atributos tradicionalmente associados à feminilidade, tais como compaixão, humildade e uma tendência à colaboração e inclusão. Os líderes mais eficazes promovem um ambiente em que indivíduos e comunidades são capazes de transcender diferenças de mentalidade, encontram pontos de consenso mesmo em situações mais desconcertantes e desafiadoras, e desenvolvem essas qualidades paciente e deliberadamente, preservando sempre os padrões de justiça. As perspectivas e experiências específicas das mulheres — incluindo a tendência comum de priorizar o bem-estar de crianças e famílias, ou de dar maior relevância ao impacto humano das políticas — capacita-as a fazer contribuições decisivas para a construção de tal liderança ética.

Avanços em aspectos mais visíveis de liderança, tais como mulheres que detêm posições de alto escalão em governos, mundo acadêmico ou empresas, bem como em outros espaços de tomada de decisão, tais como família ou comunidade, devem ser acompanhados por desenvolvimento comensurável no âmbito de cultura. Transformação duradoura exigirá a dedicação da sociedade inteira à igualdade de gênero e um comprometimento com a construção de uma vida pública modelada por mulheres e homens em parceria dinâmica e equitativa, em todas as esferas da sociedade e em todas as facetas da vida. Por esta razão, o trabalho do avanço da igualdade de gênero deve avançar no contexto local tanto quanto no internacional. Organizar processos de tomada de decisão em torno da busca de entendimento coletivo, buscar uma diversidade de perspectivas em busca de novas percepções sobre questões complexas, tomar medidas que ajudem uma variedade de partes interessadas a assumirem um papel mais ativo na vida pública—promover abordagens e valores como esses em vizinhanças e povoados contribui para o ambiente através do qual barreiras formais e institucionais, tais como leis discriminatórias e acesso desigual à educação, possam ser eliminadas.

De igual importância, o processo de construir padrões de igualdade de gênero na própria vida comunitária provê oportunidades para as mulheres desenvolverem habilidades e experiência de liderança, participarem de corpos decisórios e assumirem um papel bem mais ativo e visível na vida pública. Trabalhar para formar um novo conceito de sistemas e estruturas à luz das qualidades necessárias associadas ao feminino, especialmente em âmbito local, proporcionará às mulheres e homens, igualmente, oportunidades para aprender a superar barreiras à participação de mulheres, tais como intimidação em espaços de maioria masculina ou modelos que regulam as contribuições das mulheres no contexto do lar — barreiras, em última análise, para boa governança e paz duradoura. O impacto sobre homens e meninos pode ser igualmente significativo. Prover oportunidades, desde os primeiros anos de vida, para que meninos vejam meninas como iguais e mulheres como líderes levará a uma cultura de colaboração e sustentará a aprendizagem necessária para expressões permanentes e crescentes de igualdade. E, além de esforços conscientes para superar tais obstáculos, maiores graus de integração devem vir da percepção de que impedir a participação de mulheres em todos os níveis da sociedade priva a humanidade do potencial máximo que advém da diversidade de perspectivas na tomada de decisão.

Estabelecer relações justas em todos os níveis da sociedade pode tomar uma variedade de formas, envolvendo numerosos atores, e a plena participação das mulheres em todos esses espaços sem dúvida se mostrará indispensável para a construção de padrões equitativos de vida. De sua parte, a comunidade mundial bahá’í está explorando o papel que a aplicação de princípios espirituais à vida da sociedade pode desempenhar na eliminação de preconceitos de sexo e gênero. Nesse sentido, é central o conceito de construção de capacidade — de aprimorar a habilidade de mulheres e homens, de meninas e meninos igualmente, de defenderem e aplicarem o princípio de igualdade de gênero, em todos os tipos de circunstâncias e situações, para o aperfeiçoamento de todos. Através de programas educacionais que visam eliminar barreiras de preconceitos, infundindo atitudes de unidade e companheirismo, as crianças são nutridas desde tenra idade a caminhar lado a lado com diversos atores no serviço às suas sociedades. Reuniões simples para vizinhos orarem e discutirem as implicações de ideais religiosos, muitas vezes realizadas nas casas dos participantes, também se tornaram um espaço para se desprender de restrições de gênero de longa data. A diretora de uma escola de ensino fundamental em um vilarejo na Índia, por exemplo, notou que reuniões devocionais, maneira como esses encontros são frequentemente chamados, são uma das poucas atividades nas quais a possibilidade das mulheres saírem de casa encontrou aceitação na comunidade e um sistema há muito consagrado, que exige que as mulheres fiquem reclusas e isoladas, está começando a ceder. “Este sistema [cultural] não é mais importante do que a educação das crianças. Ou deixar as mulheres saírem de casa. Ou consultar entre si”, ela diz. “O fato de sermos capazes de consultar umas com as outras, de nos comunicar com outras pessoas e resolver problemas em conjunto, tornou-se um aspecto importante de nossas vidas.”

No decorrer da história, quando espaços tradicionalmente confinados a homens foram abertos a mulheres, isto ocorreu frequentemente em contextos de guerra, revolução e colapso. É verdade que em tempos de crise, desde dificuldades locais até calamidades nacionais, mulheres têm demonstrado repetidamente sua capacidade e resiliência. No entanto, muito frequentemente as mulheres são relegadas de volta aos confins do lar pelas forças da sociedade quando há o aparente retorno de paz e tranquilidade. Esse é um padrão que deve ser superado. Não se pode encontrar qualquer justificativa racional, de qualquer espécie, para a privação dos diversos benefícios que as mulheres trazem para a tarefa de ordenar os assuntos da sociedade. Portanto, uma questão de importância central que se apresenta a esta Comissão e ao sistema internacional como um todo é o modo como as capacidades das mulheres podem ser incorporadas e integradas tanto em tempos de paz como de tumulto, nas rotinas do dia-a-dia, bem como em ocasiões excepcionais.

Talvez, nunca antes, os laços que unem os povos do mundo tenham estado tão claros. O reconhecimento dessa interconexão deve ser combinado com determinação em utilizar a capacidade da humanidade na sua totalidade e na sua copiosa diversidade. Nenhuma consideração séria dos próximos passos de desenvolvimento da humanidade pode ignorar a necessidade de expandir a plena e efetiva participação das mulheres na tomada de decisão e na vida pública. Somente na medida em que se der plena expressão a essas habilidades é que as comunidades e sociedades terão a gama de ferramentas necessárias para abordar os muitos desafios com os quais a humanidade se defronta.
English — Leadership for a Culture of Equality, in Times of Peril and Peace.txt Open standalone →
Against the backdrop of a world undergoing profound change, there is a growing recognition of the indispensable role that women in leadership play. In the early days of the coronavirus pandemic, nations in which women contributed more prominently to the leadership of society were seen to have generated a degree of stability across a variety of short-term indicators, including public health and economic security. At the community level, women continue to play an indispensable role—and often lead—in caring for the sick, educating the young, tending to the needy, and sustaining the social and economic fabric more broadly. Never has it been more clear how much humanity benefits when women’s leadership is embraced and promoted at every level of society, whether in the family or the village, the community or local government, the corporation or the nation.  Bringing the full extent of this capacity to bear on contemporary challenges will require movement on at least two fronts: increasing women’s presence in roles of leadership and the affairs of society, and applying more widely and consistently the qualities that women tend to bring to processes of problem-solving and decision-making.

Any consideration of women’s participation in public life must include a reevaluation of models of leadership. Moments of acute peril in the life of humanity require leaders with well-trained minds, who are able to harness the power of science as well as moral and ethical principles, and who consult a diverse cross-section of experienced individuals in relevant areas. These leaders would harmonize different voices and foster a sense of common endeavor. Resisting the allurements of power, they would be characterized by integrity, trustworthiness, and unwavering adherence to principled action.

Of course, these attributes can be manifested by leaders irrespective of sex, and gender-equal and feminist policies can yield beneficial results regardless of who promotes them. Yet, it is becoming clear that increased participation of women in the life of society strengthens these qualities as an aspect of the culture of leadership—and not just as personal characteristics of individual leaders. Qualities of leadership often associated with masculinity—assertiveness, decisiveness, and competitiveness, for example—have proven limited or counterproductive when not tempered with other attributes traditionally associated with femininity, such as compassion, humility, and a tendency toward collaboration and inclusion. The most effective leaders foster environments where individuals and communities are able to transcend differences of mindset, find the points of consensus in even the most perplexing and challenging situations, and build upon these patiently and deliberately, upholding at all times the standard of justice. Women’s particular perspectives and experiences—including the common inclination to prioritize the well-being of children and families, or to consider the human impact of policies more broadly—equip them to make decisive contributions to the construction of such an ethic of leadership. 

Advances in more visible aspects of leadership, such as women holding top positions in government, academia, or business, as well as other spaces where decisions are taken, such as within the family or community, must be accompanied by commensurate developments at the level of culture. Lasting transformation will require a whole-of-society dedication to gender equality and a commitment to building a public life shaped by women and men in a dynamic and equal partnership, at every level of society and in every facet of life. For this reason, the work of advancing gender equality must proceed in the local context as much as the international. Organizing decision-making processes around the search for collective understanding, soliciting a diversity of perspectives in search of new insights into complex issues, taking measures that assist a wide variety of stakeholders to take a more active role in public life—fostering approaches and values such as these in neighborhoods and villages contributes to the environment by which formal and institutional barriers, such as discriminatory laws and uneven access to education, can be dismantled. 

Just as importantly, the process of building more gender-equitable patterns of community life itself provides opportunities for women to develop leadership abilities and experience, participate in decision-making bodies, and take a far more active and visible role in public life. Working to reconceptualize systems and structures in light of needed qualities associated with the feminine, particularly at the local level, will afford women and men alike opportunities to learn how to overcome barriers to women’s participation, like intimidation in majority male spaces or norms that frame women’s contributions in the context of the home—barriers ultimately to good governance and enduring peace. The impact on men and boys can be just as significant. Providing opportunities, from even the earliest years, for boys to see girls as equals and women as leaders will conduce to a culture of collaboration, and scaffold learning required for sustained and growing expressions of equality. And beyond conscious effort to overcome such obstacles, greater levels of integration must come from a realization that hindering women’s participation at all levels of society deprives humanity of the full range of potential that comes with a diversity of perspectives in decision-making.

Establishing just relationships at all levels of society can take a variety of forms, involving numerous actors, and the full participation of women in all these spaces will, no doubt, prove indispensable in building equitable patterns of life. For its part, the worldwide Baha’i community is exploring the role that applying spiritual principles to the life of society can play in breaking down prejudices of sex and gender. Central in this regard is the concept of capacity-building—of enhancing the ability of women and men, girls and boys alike, to champion and apply the principle of gender equality in all manner of circumstances and situations, for the betterment of all. Through educational programs that aim to break down prejudicial barriers by instilling attitudes of unity and fellowship, children are nurtured from an early age to walk shoulder to shoulder with diverse actors in service to their societies. Simple gatherings for neighbors to pray and discuss the implications of religious ideals, often held in participants’ homes, have also become a locus for the loosening of age-old gender restrictions. The head of a primary school in one village in India, for example, noted that devotional gatherings, as these meetings are often called, are one of the few activities in which the possibility of women leaving their houses has found acceptance in the community and a long-standing system requiring women to seclude and isolate themselves is starting to give way. “This [cultural] system is not more important than the education of children. Or letting women step out of the house. Or having consultations with each other,” she observes. “How we are able to consult with each other, reach out to other people, and solve our problems together has now become an important aspect of our lives.” 

Throughout history, when spaces traditionally confined to men have been opened to women, it has often been in the context of warfare, revolution, and breakdown. It is true that in times of crisis, from local hardships to national disasters, women have demonstrated their capacity and resilience time and again. Yet all too often the powers of society have relegated women back to the confines of the household when semblances of peace and calm return. This is a pattern that must be overcome. No rational justification, on any grounds, can be found for forfeiting the manifold benefits women bring to the task of ordering the affairs of society. Therefore, a question of central importance facing this Commission and the international system as a whole is how women’s capacities can be embraced and integrated in times of peace as well as turmoil, in daily routine as well as exception.    

Perhaps never before have the ties linking the peoples of the world been more clear. Recognition of this interconnection must be matched by determination to draw on humanity’s capacity in its entirety and across the abundance of its diversity. No serious consideration of humanity’s next steps of development can ignore the need to expand women’s full and effective participation in decision-making and public life. Only to the degree that these capabilities are given full expression will communities and societies have the range of tools needed to address the many challenges facing humanity.