# The I Ching (Yi King)

*Exported from [Holy-Writings.com](https://www.holy-writings.com/) on 2026-06-18 — 1 clipping.*

---

> This Project Gutenberg Etext prepared by Luiz Antônio Gusmão
> Luiz Antonio Gusmao <luizgusmao@bol.com.br>
> This Etext is our first in Portuguese!
> 
> LENDAS DO SUL
> J. Simões Lopes Neto
> 
> 1913
> Echenique & C. — Editores
> Pelotas
> 
> NOTA
> 
> Convém recordar que o primeiro povoamento branco do Rio Grande do
> Sul foi espanhol; seu poder e influencia estenderam-se até depois da
> conquista das Missões; provém disso que as velhas lendas rio-
> grandenses acham-se tramadas no acervo platino de antanho.
> 
> Vem da Ibéria, a topar-se com a ingênua e confusa tradição
> guaranítica (v. g. a lenda da M’boi-tátá) a mescla cristã-árabe de
> abusões e misticismo; dos encantamentos e dos milagres; desses
> elementos, confundidos e abrumados ( p. ex. a salamanca do serro do
> Jarau ), nasceram idealizações novas e típicas adaptadas ou
> decorrentes do meio físico e das gentes ainda na crassa infância das
> concepções.
> 
> E, como entre conquistadores brancos corria intensa e rábida a febre
> da riqueza — o sonho escaldante do El-Dorado — a fulgir nas areias
> e nos cascalhos, espadanando das entranhas misteriosas e apojadas do
> Novo-Mundo, a preponderante vivaz das suas ficções é sempre a
> imantada ânsia — pelo ouro!, forte sobre a dor e a própria morte...
> 
> Com a entrada dos mamelucos paulistas outras e doutra feição vieram
> do centro e norte do Brasil: o saci, o caápora, a oiára,
> que esfumaram-se no olvido.
> 
> Por último uma única se formou já entre gente lusitana
> radicada e a incipiente, nativa: a do Negrinho do pastoreio.
> 
> A estrutura de tais lendas perdura; procurei delas dar aqui uma
> feição expositiva — literária e talvez menos feliz — como
> expressão da dispersa forma porque a ancianidade subsistente
> transmite a tradição oral, hoje quase perdida e mui confusa: ainda
> por aí se avaliará das modificações que o tempo exerce
> sobre a memória anônima do povo.
> 
> *A M’BOI-TÁTÁ*
> _A’ Andrade Neves Neto_
> 
> _Meu caro Simões L. Neto_
> 
> _Agradeço não me haveres esquecido com a tua amizade e com o teu
> talento. A lenda da “_boi-tátá_ ”, também conhecida dos nossos
> sertanejos, com variantes que muito a diferençam da que escreveste,
> deve figurar no “folk-lore” gaúcho, onde já cintila, acesa por ti,
> a velinha do “Negrinho do Pastoreio”, à cuja claridade puseste meu
> nome. Prossegue, porque fazes trabalho de valor e muito me alegro
> por haver insistido com a tua modéstia para que continuasses a
> colher, aqui, ali, essas flores eternas da Poesia do povo, fazendo
> com elas o ramo que será um encanto para todas as almas
> e gloria para o teu nome. Abraço-te_
> 
> _teu_
> 
> _Coelho Neto_
> 
> _Rio 20-XI-09_
> 
> A M’BOI-TÁTÁ
> 
> I
> 
> Foi assim:
> 
> num campo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que
> pareceu que nunca mais haveria luz do dia.
> 
> Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e
> sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das
> flores da mataria.
> 
> Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco
> não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo
> canjica insossa; os borralhos estavam se apagando e era preciso
> poupar os tições...
> 
> Os olhos andavam tão enfarados da noite, que, ficavam parados, horas
> e horas, olhando sem ver as brasas vermelhas do nhanduvái... as
> brasas somente, porque as faiscas, que alegram, não saltavam,
> por falta do sopro forte de bocas contentes.
> 
> Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzar
> pelos trilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nem ouvido
> nem vista para bater querência; até nem sorro daria no seu próprio
> rastro!
> 
> E a noite velha ia andando... ia andando...
> 
> II
> 
> Minto:
> 
> no meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, ora duma
> banda ora doutra, de vez em quando uma cantiga forte, de bicho
> vivente, furava o ar; era o _téu-téu_ ativo, que não dormia desde o
> entrar do último sol e que vigiava sempre, esperando a volta do sol
> novo, que devia vir e que tardava tanto já...
> 
> Só o _téu-téu_ de vez em quando cantava; o seu — _quero quero!_ —
> tão claro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia agüentando a
> esperança dos homens, amontoados no redor avermelhado das brasas.
> 
> Fora disto, tudo o mais era silêncio; e de movimento,
> então, nem nada.
> 
> III
> 
> Minto:
> 
> na ultima tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando para o
> lado para o outro lado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobe
> a estrela d’alva, nessa ultima tarde também desabou uma chuvarada
> tremenda; foi uma manga d’água que levou um tempão
> a cair, e durou... e durou...
> 
> Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas
> 
> coleando os tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num; os
> passos cresceram e todo aquele peso d’água correu para as sangas e
> das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo
> fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E nessas
> coroas é que ficou sendo o paradouro da animalada, tudo misturado,
> no assombro. E era terneiros e pumas, tourada e potrilhos, perdizes
> e guaraxains, tudo amigo, de puro medo. E então!...
> 
> Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas, as cobras
> se enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas do santa-fé e
> das tiriricas boiavam os ratões e outros miúdos.
> 
> E, como a água encheu todas as tocas, entrou também na da cobra
> grande, a — _boi-guassú_ — que, havia já muitas mãos de luas,
> dormia quieta, entanguida. Ela então acordou-se e saiu, rabiando.
> 
> Começou depois a mortandade dos bichos e a _boi-guassú_ pegou a
> comer as carniças. Mas só comia os olhos e nada, nada mais.
> 
> A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando,
> e a cada hora mais olhos a cobra grande comia.
> 
> IV
> 
> Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu.
> 
> A tambeira que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do
> milho verde; o cerdo que come carne de bagual nem vinte alqueires de
> mandioca o limpam bem; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no
> sangue tem cheiro de pescado. Assim também, nos homens, que até sem
> comer nada, dam nos olhos a cor dos seus arrancos. O homem de olhos
> limpos é guapo e mão aberta; cuidado com os vermelhos; mais cuidado
> com os amarelos; e toma tenência doble com os raiados e baços!...
> 
> Assim foi também, mais de outro jeito, com a _boi-guassú_,
> que tantos olhos comeu.
> 
> V
> 
> Todos — tantos, tantos! que a cobra grande comeu —, guardavam
> entranhando e luzindo, um rastilho da ultima luz que eles viram do
> último sol, antes da noite grande que caiu... E os olhos — tantos,
> tantos! — com um pingo de luz cada um, foram sendo devorados; no
> principio um punhado, ao depois uma porção, depois um bocadão,
> depois, como uma braçada...
> 
> VI
> 
> E vai,
> 
> como a _boi-guassú_ não tinha pêlos como o boi, nem escamas como o
> dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro
> grosso como a anta vai, o seu corpo foi ficando transparente
> clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram
> esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz.
> E vai, afinal, a boi-guassú toda já era uma luzerna, um clarão sem
> chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria,
> saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam
> vivos...
> 
> VII
> 
> Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela primeira vez
> viram a _boi-guassú_ tão demudada, não a conheceram mais. Não
> conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamaram-na desde
> então, de _boi-tátá_, cobra de fogo, _boi-tátá_ , a _boi-tátá_ !
> 
> E muitas vezes a _boi-tátá_  rondou as rancherias, faminta, sempre
> que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.
> 
> E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande
> corpo de serpente, transparente — _tátá_, de fogo — que media mais
> braças que três laços de conta e iam alumiando baçamente as
> carquejas... E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo,
> pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os
> olhos e a _boi-tátá_  ainda cobiçava os olhos vivos
> dos homens, que já os da carniça enfaravam...
> 
> VIII
> 
> Mas, como dizia:
> 
> na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da _boi-tátá_ , e
> era por ela que o _téu-téu_ cantava de vigia, em todos
> os flancos da noite.
> 
> Passado um tempo, a _boi-tátá_  morreu; de pura fraqueza morreu,
> porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhe deram
> sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si
> entranhada tiveram quando vivos...
> 
> Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os montes
> pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre
> as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se,
> também como cousa da terra, que se estraga de vez.
> 
> E foi então que a luz que estava preza se desatou por aí.
> 
> E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!
> 
> IX
> 
> Minto:
> 
> apareceu, sim, mas veio de sopetão. Primeiro foi se adelgaçando o
> negrume, foram despontando as estrelas; e estas se foram sumindo no
> coloreado do céu; depois foi sendo mais claro, mais claro, e logo,
> na lonjura, começou a subir uma lista de luz... depois a metade de
> uma cambota de fogo... e já foi o sol que subiu, subiu, subiu até
> vir a pino e descambar, como dantes, e desta feita,
> para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.
> 
> X
> 
> Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para
> nascer de novo: só a luz da _boi-tátá_  ficou sozinha,
> nunca mais se juntou com outra luz de que saiu.
> 
> Ainda sempre se arrisca e só, nos lugares onde quanta
> carniça houve, mais se infesta. E no inverno, de entanguida,
> não aparece e dorme talvez entocada.
> 
> Mas de verão, depois da quentura dos mormaços,
> começa então seu fadário.
> 
> A _boi-tátá_ , toda enroscada, como uma bola — _tátá_, de fogo! —
> empeça a correr pelo campo, coxilha abaixo, lomba acima,
> até que horas da noite!...
> 
> É um fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca
> nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre,
> corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagando...
> e quando menos se espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito!
> 
> Maldito! T’esconjuro!
> 
> XI
> 
> Quem encontra a _boi-tátá_ pode até ficar cego... Quando alguém topa
> com ela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado, muito
> quieto, de olhos apertados e sem respirar, até ir-se ela embora, ou
> se anda a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande e
> atirar-lha em cima, e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto,
> todo solto, até a ilhapa!
> 
> A _boi-tátá_ vem acompanhado o ferro da argola... mas de repente
> batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando a luz,
> para emulitar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.
> 
> XII
> 
> Campeiro precatado! reponte o seu gado da _boi-tátá_ : o pastiçal,
> aí, faz peste...
> 
> Tenho visto!
> 
> *A SALAMANCA DO JARAU*
> _A Alcides Maya_
> 
> O Serro do Jarau 1
> A salamanca 2
> 
> I
> 
> Era um dia...,
> 
> um dia, um gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte, mas que
> só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais,
> estava conchavado de posteiro, ali na entrada do rincão; e nesse dia
> andava campeando um boi barroso.
> 
> E no tranquito andava, olhando; olhando para o fundo das sangas;
> para o alto das coxilhas, ao comprido das canhadas; talvez deitado
> estivesse entre as carquejas — a carqueja é sinal de campo bom —,
> por isso o campeiro ás vezes alçava-se nos estribos e, de mão em
> pala sobre os olhos, firmava mais a vista entorno; mas o boi
> ]barroso, crioulo daquela querência, não aparecia; e Blau ia
> campeiando, campeiando...
> 
> Campeiando e cantando:
> 
> “Meu bonito boi barroso,
> Que eu já contava perdido,
> Deixando o rastro na areia
> Foi logo reconhecido.
> 
> “Montei no cavalo escuro
> E trabalhei logo de espora;
> E gritei — aperta, gente,
> Que o meu boi se vai embora! —
> 
> “No cruzar uma picada,
> Meu cavalo relinchou,
> Dei de rédea para a esquerda,
> E o meu boi me atropelou!
> 
> “Nos tentos levava um laço
> De vinte e cinco rodilhas.
> P’ra laçar o boi barroso
> Lá no alto das coxilhas!
> 
> “Mas o mato carrasquento
> Onde o boi ‘stava embretado,
> Não quis usar o meu laço
> P’ra não vê-lo retalhado
> 
> “E mandei fazer um laço
> Da casca do jacaré,
> P’ra laçar meu boi barroso
> Num redomão pangaré.
> 
> “E mandei fazer um laço
> Do couro da jacutinga,
> P’ra laçar meu boi barroso
> Lá no passo da restinga.
> 
> “E mandei fazer um laço
> Do couro da capivara
> P’ra laçar meu boi barroso
> Nem que fosso à meia-cara;
> 
> “Este era um laço de sorte,
> Pois quebrou do boi a balda”...
>  . . . . . . . . . . . . . . . .
>  . . . . . . . . . . . . . . . .
> 
> No tranquito ia, cantando, e pensando na sua pobreza,
> no atraso das suas cousas.
> 
> No atraso das suas cousas, desde o dia em que topou — cara à cara!
> — com o Caipora num campestre da serra grande, p’ra lá,
> muito longe no Botucaraí...
> 
> A lua ia recém saindo...; e foi à boquinha da noite...
> 
> Hora de agouro pois então!...
> 
> Gaúcho valente que era dantes, ainda era valente agora; mas, quando
> cruzava o facão com qualquer paisano, o ferro da sua mão ia mermando
> e o do contrario o lanhava...
> 
> Domador destorcido e parador, que, por só pabolajem gostava de
> paletear, ainda era domador agora; mas, quando gineteava mais
> folheiro, ás vezes, num redepente, era volteado...
> 
> De mão feliz para plantar, que não lhe chochava semente nem muda de
> raiz se perdia, ainda era plantador, agora; mas, quando a semeadura
> ia apontando da terra, dava uma praga em toda, tanta, que benzedura
> não vencia...; e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal
> floria, e quando dava fruta, era mixe e era azeda...
> 
> E assim, por esse teor, as cousas corriam-lhe mal; e pensando nelas
> o gaúcho pobre, Blau, de nome, ia, ao tranquito, campeiando, sem
> topar co’o boi barroso.
> 
> De repente, na volta duma reboleira, bem na beirada dum boqueirão,
> sofrenou o tostado...: ali em frente, quieto e manso, estava um
> vulto, de face tristinha e mui branca.
> 
> Aquele vulto de face branca... aquela face tristonha!...
> 
> Já ouvira falar dele, sim, não uma nem duas, mas muitas vezes...; e
> de homens que o procuravam, de todas as pintas, vindos de longe, num
> propósito, para endrominas de encantamentos..., conversas que se
> falavam baixinho, como num medo; p’r’o caso, os que podiam não
> contavam, porque uns, desandavam apatetados e vagavam por aí, sem
> dizer cousa com cousa, e outros calavam-se muito bem calados, talvez
> por juramento dado...
> 
> Aquele vulto era o santão da salamanca do serro.
> 
> Blau Nunes sofrenou o cavalo.
> 
> Correu-lhe um arrepio no corpo, mas era tarde para recuar: um homem
> é para outro homem!...
> 
> E como era ele
> 
> quem chegava, ele é que tinha de louvar; saudou:
> 
> — Láus’ Sus’ Cris’!...3
> 
> — Para sempre, amem! disse o outro, e logo ajuntou: O boi barroso
> vai trepando serro acima, vai trepando... Ele anda cumprindo
> o seu fadário..4
> 
> Blau Nunes pasmou do adivinho; mas respostou:
> 
> — Vou no rastro!...
> 
> — Está enredado...
> 
> — Sou tapejara, sei tudo, palmo a palmo, até à boca preta do fumo
> do serro...
> 
> — Tu... tu, paisano, sabes a entrada da salamanca?...
> 
> — É lá?... Então, sei, sei! A salamanca do serro do Jarau!...
> Desde a minha avó charrua, que eu ouvi falar!...
> 
> — O que contava a tua avó?
> 
> — A mãe da minha mãe dizia assim:
> 
> II
> 
> — Na terra dos espanhóis, do outro lado do mar, havia uma cidade
> chamada—Salamanca — onde viveram os mouros, os mouros que eram
> mestres nas artes de magia; e era numa furna escura que eles
> guardavam o condão mágico, por causa da luz branca do sol,
> que diz’ que desmancha a força da bruxaria...
> 
> O condão estava no regaço de uma fada velha, que era uma princesa
> moça, encantada, e bonita como só ela!...
> 
> Num mês de quaresma os mouros escarneceram muito do jejum dos
> batizados, e logo perderam uma batalha muito pelejada; e vencidos
> foram obrigados ajoelharem-se ao pé da Cruz Bendita... e a baterem
> nos peitos, pedindo perdão...
> 
> Então, depois, alguns, fingidos de cristãos, passaram o mar e vieram
> dar nestas terras sossegadas, procurando riquezas, ouro, prata,
> pedras finas, gomas cheirosas... riquezas para levantar de novo o
> seu poder e alçar de novo a Meia-Lua sobre a Estrela de Belém...
> 
> E para segurança das suas traças trouxeram escondida a fada velha,
> que era a sua formosa princesa moça...
> 
> E devia ter mesmo muito força o condão, porque nem os navios se
> afundaram, nem os frades de bordo desconfiaram, nem os próprios
> santos que vinham, não sentiram...
> 
> Nem admira, porque o condão das mouras encantadas sempre aplastou a
> alma dos frades e não se importa com os santos do altar, porque
> esses são só imagens...
> 
> Assim bateram nas praias da gente pampeana os tais mouros e mais
> outros espanhóis renegados. E como eles eram, todos, de alma
> condenada, mal puseram pé em terra, logo na meia noite da primeira
> sexta-feira foram visitados pelo Diabo deles, que neste lado do
> mundo era chamado de Anhangá-pitã5 e mui respeitado. Então, mouros e
> renegados disseram ao que vinham; e Anhangá-pitã folgou muito;
> folgou, porque a gente nativa daquelas campanhas e destas serras era
> gente sem cobiça de riquezas, que só comia a caça, o peixe, a fruta
> e as raízes que Tupã despejava sem conta, para todos, das suas mãos
> sempre abertas e fazedoras...
> 
> Por isso Anhangá-pitã folgou, porque assim minava para o peito dos
> inocentes as maldades encobertas que aqueles chegados traziam...; e
> pois, escutando o que eles ambicionavam para vencer a Cruz com a
> força do Crescente, o maldoso pegou do condão mágico — que navegara
> em navio bento e entre frades rezadores e santos milagrosos —,
> esfregou-o no suor do seu corpo e virou-o em pedra transparente; e
> lançando o bafo queimante do seu peito sobre a fada moura, demudou-a
> teiniaguá6 , sem cabeça. E por cabeça encravou então no novo corpo da
> encantada a pedra, aquela, que era o condão, aquele.
> 
> E como já era sobre a madrugada, no crescimento da primeira luz do
> dia, do sol vermelho que ia querendo romper  dos confins por sobre o
> mar, por isso a cabeça de pedra transparente ficou vermelha como
> brasa e tão brilhante que os olhos de gente vivente não podiam parar
> nele, ficando encandeiados, quase cegos!...
> 
> E desfez-se a companhia até o dia da peleja da nova batalha. E
> chamaram — salamanca — à furna desse encontro; e o nome ficou
> p’r’as furnas todas, em lembrança da cidade dos mestres mágicos.
> 
> Levantou-se um ventarrão de tormenta e Anhangá-pitã, trazendo num
> bocó a teiniaguá, montou nele, de salto, e veio correndo sobre a
> correnteza do Uruguai, por léguas e léguas, até as suas nascentes,
> entre serranias macotas.
> 
> Depois, desceu, sempre com ela; em sete noites de sexta-feira
> ensinou-lhe a vaqueanajem de todas as furnas recamadas de tesouros
> escondidos... escondidos pelos cauílas, perdidos para os medrosos e
> achadio de valentes... E a mais desses, muitos outros tesouros que a
> terra esconde e que só os olhos do zaorís7 podem vispar...
> 
> Então Anahangá-pitã, cansado pegou num cochilo pesado, esperando o
> cardume da desgraças novas, que deviam pegar p’ra sempre...
> 
> Só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher...
> 
> Aqui está tudo o que eu sei, que a minha avó charrúa8 contava à minha
> mãe, e que ela já ouviu, como cousa velha, contar por outros que,
> esses, viram!...
> 
> E Blau Nunes bateu o chapéu para o alto da cabeça, deu um safanão no
> cinto, aprumando o facão...; foi parando o gesto e ficou-se olhando,
> sem mira, para muito longe, para onde a vista não chegava mas onde o
> sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e ainda
> passava... ainda passava, porque o sonho não tem
> lindeiros nem tapumes...
> 
> Falou então
> 
> o vulto de face branca e tristonha; falou em voz macia.
> E disse assim:
> 
> III
> 
> É certo:
> 
> não tomou tenência que a teiniaguá era mulher... Ouve paisano.
> 
> No costado da cidade  onde eu vivia havia uma lagoa, larga e funda,
> com uma ilha de palmital, no meio. Havia uma lagoa...
> 
> A minha cabeça foi banhada na água  benta da pia, mas nela
> encontraram soberbos pensamentos maus... O meu peito foi ungido com
> os santos óleos, mas nele entrou a doçura que tanto amarga,
> do pecado...
> 
> A minha boca provou do sal piedoso... e nela entrou a frescura
> que requeima, dos beijos da tentadora...
> 
> Mas, é que assim era o fado... ; tempo e homem virão para me
> libertar, quebrando o encantamento que me amarra; duzentos anos hão
> de findar; eu esperarei no entanto, vivendo na minha tristeza seca,
> tristeza de arrependido que não chora...
> 
> Tudo o que me volteia no ar tem seu dia de aquietar-se no chão...
> 
> Era eu que cuidava dos altares e ajudava a missa dos santos padres
> na igreja de S. Tomé, do lado ao poente do grande rio Uruguai. Sabia
> bem acender os círios, feitos com a cera virgem das abelheiras da
> serra; e bem balançar o turíbulo, fazendo ondear a fumaça cheirosa
> do rito; e bem tocar a santos, na quina do altar, dois degraus
> abaixo, à direita do padre; e dizia as palavras do missal; e nos
> dias de festa sabia repicar o sino; e bater as horas, e dobrar a
> finados... Eu era o sacristão.
> 
> Um dia, na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras,
> sesteando; nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças, nem
> choro de crianças: tudo sesteava. O sol faiscava nos pedregulhos
> lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada no ar parado, sem
> uma viração.
> 
> Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha da sacristia,
> levando no corpo a frescura da sombra benta, levando na roupa o
> cheiro da fumaça piedosa. E sai sem pensar em nada, nem de bem nem
> de mal; fui andando como levado...
> 
> Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.
> 
> A água da lagoa borbulhava toda, numa fervura, ronquejando tal e
> qual como uma marmita no borralho. Por certo que lá embaixo, dentro
> da terra é que estaria o braseiro que levantava aquela fervura que
> cozinhava os juncos e as traíras e pelava as pernas dos socós e
> espantava todos os mais bichos barulhentos daquelas águas...
> 
> Eu vi, vi o milagre de ferver toda uma lagoa... ferver,
> sem fogo que se visse!
> 
> A mão direita, pelo costume, andou a fazer o “Pelo Sinal”... e
> parou, pesada como chumbo; quis rezar um “Credo”, e a lembrança
> dele recuou; e voltar, correr e mostrar o Santíssimo... e tanger o
> sino em dobre... e chamar o padre superior, tudo para esconjurar
> aquela obra do inferno... e nada fiz... sem força na vontade, nada
> fiz... nada fiz, sem governo no corpo!...
> 
> E fui andando, como levado, para mais de perto ver,
> e não perder de ver o espantoso
> 
> Porém logo outra força acalmou tudo; apenas a água fumegante
> continuou retorcendo os lodos remexidos, onde boiava toda uma
> mortandade dos viventes que morrem sem gritar...
> 
> Era no fim de lançante comprido, estrada batida e limpa, de todos os
> dias as mulheres irem para a lavagem; e quando eu estava na beira da
> água, vendo o que estava vendo, então rompeu dela um clarão, maior
> que o da luz a pino do dia, clarão vermelho, como dum sol morrente,
> e que luzia desde o fundão da lagoa e varava a água barrenta...
> 
> E veio crescendo para a barranca, e saiu e tomou terra, e sem medo e
> sem ameaça veio andando para mim a sempre escapada maravilha...,
> maravilha que os que nunca viram juravam sempre ser — verdade — e
> que eu, que estava vendo, ainda jurava ser — mentira! —
> 
> Era a teiniaguá, de cabeça
> 
> de cabeça de pedra luzente, por sem dúvida; dela já tinha ouvido ao
> padre superior a historia contada dum encontradiço que quase cegou
> de teimar em agarrá-la.
> 
> Entrecerrei os olhos, coando a vista, cautelando perigo; mas a
> teiniaguá veio me chegando, deixando no chão um duro rastro d’água
> que escorria e logo secava, do seu corpinho verde de lagartixa
> engraçada e buliçosa...
> 
> Lembrei-me — como quem olha dentro de cerração — lembrei-me do
> corria na voz da gente sobre o entanguimento que traspassa o nosso
> corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino no couro
> ressequido...
> 
> Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía, é que na
> água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa e foi o
> quanto agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei
> a teiniaguá que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente,
> firmando nas patinhas da frente, a cabeça cristalina, como curiosa,
> faiscando...
> 
> De olhos apertados, piscando, para me não atordoar dum golpe de
> cegueira, assentei no chão a guampa e preparando o bote, num
> repente, entre susto e coragem, segurei a teiniaguá e meti-a para
> dentro dela!
> 
> Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e cabeça
> sonando como um sino de catedral...
> 
> Corri para o meu quarto, casa grande dos santos padres. Entrei pelo
> cemitério, por detrás da igreja, e desatinado, derrubei cruzes,
> pisoteei ramos, calquei sepulturas!...
> 
> Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.
> 
> Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.
> 
> Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a
> teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o
> Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os
> Cavaleiros da Tábola...
> 
> Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que conhecia.
> 
> E eu, agora!...
> 
> E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e
> esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como
> se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos...
> 
> E foram se escancarando as portas de castelos e palácios, onde eu
> entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava ás
> janelas, arredava reposteiros, deitava-me em trastes que nunca tinha
> visto e servia-me em baielas estranhas, que eu não sabia
> para o que prestavam...
> 
> E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde
> no azul das distancias, e ainda lindando com outras estancias, que
> também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas...
> 
> E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos
> como o mato virgem...
> 
> E atulhava de planta colhida — milho, feijão, mandioca — os
> meus paióis.
> 
> E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios,
> amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata;
> dependuradas na galhação de cem cabeças de cervo, tinha bolsas de
> couro e de veludo atochadas de diamantes, brancos como gotas d’água
> filtrada em pedra, que os meus escravos — saídos mil, chegados
> dez —, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma
> cachoeira grande, em meia lua, chamada de Iguaçu, muito p’ra lá
> doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra...
> 
> Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal
> que respirava um descanso, de novamente, de novamente pegava a
> contar, a pesar, a medir...
> 
> Tudo isto eu podia ter — e tinha, de meu, tinha! —, porque era
> dono da teiniaguá, que estava presa dentro da guampa, fechada na
> canastra forrada de couro cru, taxeada de cobre,
> dobradiças de bronze!...
> 
> Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde...
> 
> Pela primeira vez não fui eu que toquei: devia ser um dos padres,
> na minha falta.
> 
> Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.
> 
> Voltei a mim. Lembrei-me de que o animalzinho precisava alimento.
> 
> Tranquei portas e janelas e saí para buscar um porongo de mel de
> lechiguana, por ser o mais fino.
> 
> E fui; melei; e voltei.
> 
> Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.
> 
> E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa
> e libertar a teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os
> pés se me enraizaram, os sentidos do rosto se ariscaram e o coração
> mermou no compassar do sangue!...
> 
> Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!...
> 
> Que disse:
> 
> IV
> 
> — Eu sou a princesa moura encantada, trazida de outras terras por
> sobre um mar que os meus nunca sulcaram... Vim, e Anhangá-pitã
> transformou-me em teiniaguá de cabeça luminosa, que outros chamam
> o — carbúnculo — e temem e desejam, porque eu sou a rosa dos
> tesouros escondidos dentro da casca do mundo...
> 
> Muitos tem me procurado com o peito somente cheio de torpeza, e eu
> lhes hei escapado das mãos ambicioneiras e dos olhos cobiçosos,
> relampejando desdenhosa o lume vermelho da minha cabeça
> transparente...
> 
> Tu, não; tu não me procuraste ganoso... e eu subi ao teu encontro;
> e me bem trataste pondo água na guampa e trazendo mel fino para
> o meu sustento.
> 
> Si quiseres, tu, todas as riquezas que eu sei, entrarei de novo na
> guampa e irás andando e me levarás onde eu te encaminhar, e serás
> senhor do muito, do mais, do tudo!...
> 
> A teiniaguá que sabe dos tesouros, sou eu, mas sou também
> a princesa moura...
> 
> Sou jovem... sou formosa..., o meu corpo é rijo e não tocado!...
> 
> E estava escrito que tu serias o meu par.
> 
> Serás o meu par... se a cruz do teu rosário me não esconjurar... se
> não, serás ligado ao meu flanco, para, quando quebrado
> o encantamento, do sangue de nós ambos nascer uma nova gente,
> guapa e sábia, que nunca mais será vencida, porque terá todas as
> riquezas que eu sei e as que tu lhe carrearás por via dessas!...
> 
> Si a cruz do teu rosário não me esconjurar...
> 
> Sobre a cabeça da moura amarelejava nesse instante o crescente
> dos infiéis...
> 
> E foi se adelgaçando
> 
> no silêncio a cadencia em balante da fala induzidora.
> 
> A cruz do meu rosário...
> 
> Fui passando as contas, apressado e atrevido, começando na
> primeira... e quando tenteei a ultima... e que entre as duas os meus
> dedos, formigando, deram com a Cruz do Salvador... fui levantando o
> Crucificado... bem em frente da bruxa, em salvatério... na altura do
> seu coração... na altura da sua garganta... da sua boca...
> na altura dos...
> 
> E aí parou, porque olhos de amor, tão soberanos e cativos, em mil
> vidas de homem como o aroma sai da flor que vai apodrecendo...
> 
> Cada noite
> 
> era meu ninho o regaço da moura; mas quando batia a alva, ela
> desaparecia ante a minha face cavada de olheiras...
> 
> E crivado de pecados mortais, no adjutório da missa trocava os amém,
> e todo me estortegava e doía quando o padre lançava a benção sobre a
> gente ajoelhada, que rezava para alivio dos seus pobres pecados, que
> nem pecados eram, comparados com os meus...
> 
> Uma noite ela quis misturar o mel do seu sustento com o vinho do
> sacrifício; e eu fui, busquei no altar o copo de ouro consagrado,
> todo lavorado de palma e resplendores; e trouxe-o, transbordante,
> transbordando...
> 
> E embebedados caímos, abraçados.
> 
> Sol nado, despertei
> 
> estava cercado pelos santos padres.
> 
> Eu, descomposto; no chão o copo, entornado; sobre o oratório,
> desdobrada, uma charpa de seda, lavrada de bordaduras, exóticas,
> onde sobressaía uma meia-lua prendendo entre as aspas uma estrela...
> E acharam a canastra guampa e no porongo o mel... e até no ar
> farejaram cheiro mulherengo... Nem tanto era preciso para ser logo
> jungido em manilhas de ferro.
> 
> Afrontei o arrocho da tortura, entre ossos e carnes amachucadas e
> unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia
> gritos nem palavras grossas; os padres remordiam a minha alma,
> prometendo o inferno eterno e exprimiam o meu arquejo decifrando uma
> confissão...; mas a minha boca não falou..., não falou por senha
> firme da vontade, que não me palpitava confessar quem era ela
> e que era linda...
> 
> E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se
> das riquezas, que eu queria só p’ra mim, se do seu amor, que eu não
> queria que fosse senão meu, inteiro e todo!
> 
> Mas por senha da vontade a boca não falou.
> 
> Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame;
> condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era
> bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira.
> 
> No adro e no largo da igreja o povo ajoelhado batia nos peitos,
> clamando a morte do meu corpo e a misericórdia para a minha alma.
> 
> O sino começou dobrando a finados. trouxeram-me em braços, entre
> alabardas e lanças, e um cortejo moveu-se ,compassando a gente
> d’armas, os santos padres, o carrasco e o povaréu.
> 
> Dobrando a finados... dobrando a finados...
> 
> Era por mim.
> 
> V
> 
> E quando, sem mais esperança nos homens nem no socorro do céu,
> chorei uma lágrima de adeus à teiniaguá encantada, dentro do meu
> sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu cativo e soberano
> amor...., como em rocha dura serpenteia ás vezes um fio de ouro
> alastrado e firme, como uma raiz que não quer morrer!...
> 
> E aquela saudade parece que saiu para fora do meu peito, subiu aos
> olhos feita em lágrima e ponteou para algum rumo, ao encontro doutra
> saudade rastreada sem engano...; parece, porque nesse momento um
> ventarrão estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu,
> sacudida, tanto, de as arvores desprenderem os seus frutos,  de os
> animais estaquearem-se, medrosos, e de os homens caírem do cóc’ras,
> agüentando as armas, outros, de bruços, tateando o chão...
> 
> E nas correntezas sem corpo, da ventania, redomoinhavam em chusma
> vozes de guaranis , esbravejando se soltasse o padecente...
> 
> Para traz do cortejo, desfiando o som entre as poeiras grossas e
> folhas secas levantadas, continuava o sino dobrando a finados...
> dobrando a finados!...
> 
> Os santos padres, pasmados mas sisudos, rezavam encomendando a minha
> alma; em roda, boquejando, chinas, piás, índios velhos, soldados de
> couraça e lança, e o alcaide, vestido de samarra amarela com dois
> leões vermelhos e a coroa del-rei brilhando em canutilho de ouro...
> 
> A lágrima do adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o
> claro ver: e o palmital da lagoa, o boleado das coxilhas, o recorte
> da serra, tudo isto, que era grande e sozinho cada um enchia e
> sobrava para os olhos limpos dum homem, tudo isso eu enxergava
> junto, empastalhado e pouco, espelhando-se na lágrima suspensa, que
> se encrespava e adelgaçava, fazendo franjas entre as pestanas
> balançantes dos meus olhos de condenado sem perdão...
> 
> A menos de braça, estava o carrasco atento no garrote!
> 
> Mas os olhos do meu pensamento, altanados e livres, esses, esses
> viam o corpo bonito, lindo, belo, da princesa moura, e recreiavam-se
> na luz cegante da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os
> olhos dela, olhos de amor, tão soberanos e cativos como em mil vidas
> de homens outros se não viram!...
> 
> E por certo por essa força que nos ligava sem ser vista, como
> naquele dia em que o povo sesteava e também nada viu... por força
> dessa força, quanto mais os padres e alguazis ordenavam que eu
> morresse, mais pelo meu livramento forcejava o irado peito da
> encantada, não sei se de amor perdida pelo homem, se de orgulho
> perverso do perjuro, se da esperança de um dia ser humana...
> 
> O fogo dos borralhos foi-se alteando em labaredas e saindo pelas
> quinchas dos ranchos, sem queimá-los..: as crianças de peito
> soltaram palavras feitas, como gente grande...; e bandadas de urubus
> apareceram e começaram a contradançar tão baixo, que se lhes ouvia o
> esfregar das penas contra o vento..., a contradançar, afiados para
> uma carniça que ainda não havia porém que havia de haver...
> 
> Mas os santos padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e
> borrifaram de água benta o povo amedrontado; e seguiram como num
> propósito, encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão
> real e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha
> morte, por ter todo amores com mulher moura, falsa,
> sedutora e feiticeira...
> 
> Rolou então, sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a
> saudade distilara.
> 
> Deu logo a lagoa um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e
> monstruoso...: e rasgou—se cerce em um sangão medonho, entre largo
> e fundo... e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo, em
> borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas, lá eu vi e
> todos e todos viram a teiniaguá de cabeça de pedra transparente,
> fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá correr estrombando os
> barrocais, até rasgar, romper, arruir a boca do sangão na alta
> barranca do Uruguai, onde a correnteza em marcha despencou-se,
> espadanando em espumarada escura, como caudal de chuvas
> tormentosas!...
> 
> A gente levantou p’r’o céu um vozear de lastimas e choros e gemidos.
> 
> — Que a Missão de S. Tomé ia perecer... e dasabar a igreja... a
> terra expulsar os mortos do cemitério... que as crianças inocentes
> iam perder a graça do batismo... e as mães secar o leite... e as
> roças o plantio, os homens a coragem...
> 
> Depois de um grande silêncio balançou no ar, como esperando...
> 
> Mas um milagre se fez: o Santíssimo de se próprio, perpassou a
> altura das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz
> Bendita!... o padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e
> trôpego marchou para o povoado; os acólitos seguiram, e o alcaide,
> os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou, como em
> procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais do que tremer,
> porque ventos, fogo, urubus e estrondos se humilharam,
> fenecendo, dominados!...
> 
> Fiquei sozinho, abandonado, e no mesmo lugar e mesmos ferros posto.
> 
> Fiquei sozinho, ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas
> que iam minguando, em retirada... mas também ouvindo com os ouvidos
> do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos do meu
> rosto viam a consolação da Maria Puríssima que se alonjava... mas os
> olhos do pensamento viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá; o
> nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo e
> perfumando as santidades... mas o faro do pensamento sorvia a
> essência das flores do mel fino de que a teiniaguá tanto gostava; a
> língua da minha boca estava seca, de agonia, dura, de terror,
> amarga, de doença... mas a língua do pensamento saboreava os beijos
> da teiniaguá, doces e macios, frescos e sumarentos como polpa de
> guabiju colhido ao nascer do sol; o tato das minhas mãos tocava
> manilhas de ferro, que me prendiam por braços e pernas... mas o tato
> do pensamento roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e
> rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de jaguar
> no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel em
> fúria...
> 
> E tanto como ia entrando na cidade, ia eu chegando à barranca do
> Uruguai; tanto como as gentes, lá, iam acabando as orações para
> alcançar a clemência divina, ia eu começando o meu fadário todo dado
> à teiniaguá, que me enfeitiçou de amor, pelo seu amor de princesa
> moura, pelo seu amor de mulher, que vale mais que destino de
> homem!...
> 
> Sem peso de dores nos ossos e nas carnes, sem peso de ferros no
> corpo, sem peso de remorsos na alma passei o rio para lado do
> Nascente. A teiniaguá fechou os tesouros da outra banda e juntos
> fizemos então caminho para o Serro do Jarau, que ficou sendo o paiol
> das riquezas de todas as salamancas dos outros lugares.
> 
> Para a memória do dia tão espantoso lá ficou o sangão rasgado na
> baixada da cidade de Santo Thomé,9 desde o tempo antigo das Missões.
> 
> VI
> 
> Faz duzentos anos que aqui estou; aprendi sabedorias árabes e tenho
> tornado contentes alguns raros homens que bem sabem que a alma é um
> peso entre o mandar e o ser mandado...
> 
> Nunca mais dormi; nunca mais nem fome, nem sede, nem dor,
> nem riso...
> 
> Passeio no palácio maravilhoso, dentro deste Serro do Jarau, ando
> sem parar e sem cansaço; piso com pés vagarosos, piso torrões de
> ouro em pó, que se desfazem como terra fofa; o areião dos jardins,
> que calco, enjoado, é todo feito de pedras verdes e amarelas e
> escarlates e azuis, rosadas, violetas... e quando a encantada passa
> todas incendeiam-se num íris de cores rebrilhantes, como se cada uma
> fosse uma brasa viva faiscando sem a mais leve cinza...;  há poços
> largos que estão atulhados de doblões e de onças e peças de jóias e
> armaduras, tudo ouro maciço do Peru e do México e das Minas Gerais,
> tudo cunhado com os troféus dos senhores reis de Portugal e de
> Castela e Aragão...
> 
> E eu olho para tudo, enfarado de ter tanto e não poder gozar nada
> entre os homens, como quando era como eles e como eles gemia
> necessidades e cuspia invejas, tendo horas de bom coração por dias
> de maldade e sempre aborrecimento do que possuía, ambicionando o que
> não possuía...
> 
> O encantamento que eu acompanhe os homens de alma forte e coração
> sereno que quiserem contratar a sorte nesta salamanca que eu tornei
> famosa, do Jarau.
> 
> Muitos tem vindo... e têm saído peiorados, para lá longe irem morrer
> do medo aqui pegado, ou andarem pelos povoados assustando as gentes,
> loucos, ou pelos campos fazendo vida com os bichos brutos...
> 
> Poucos toparam a parada... ah!... mas esses que toparam, tiveram o
> que pediram, que a rosa dos tesouros, a moura encantada não desmente
> o que eu prometo, nem retoma o que dá!
> 
> E todos os que chegam deixam um resgate de si próprios para nosso
> livramento um dia...
> 
> Mas todos os que vieram são altaneiros e vieram arrastados pela
> ânsia da cobiça ou dos vícios, ou dos ódios: tu foste o único que
> veio sem pensar e o único que me saudou como um filho de Deus...
> 
> Foste o primeiro, até agora; quando terceira saudação de cristão
> bafejar estas alturas, o encantamento cessará, porque eu estou
> arrependido... e com Pedro Apostolo que três vezes negou Cristo foi
> perdoado, eu estou arrependido e serei perdoado.
> 
> Está escrito que a salvação há de vir assim: e por bem de mim,
> quando cessar o meu cessará também o encantamento da teiniaguá:
> quando isso se der a salamanca desaparecerá, e todas as riquezas,
> todas as pedras finas, todas as peças cunhadas, todos os
> sortilégios, todos os filtros para amar por força... para matar...
> para vencer... tudo, tudo, tudo se virará em fumaça que há de sair
> pelo cabeço roto do serro, espalhada na rosa dos ventos pela rosa
> dos tesouros...
> 
> Tu me saudaste — o primeiro, tu! — saudaste como cristão.
> 
> Pois bem:
> 
> alma forte e coração sereno!... Quem isso tem, entra na salamanca,
> toca o condão mágico e escolhe o quanto quer...
> 
> Alma forte e coração sereno! A furna escura está lá: entra! Entra!
> Lá dentro sopra um vento quente que apaga qualquer torcida de
> candeia... e tramado nele corre outro vento frio... que corta como
> serrilha e geada.
> 
> Não há ninguém lá dentro... mas bem que se escuta voz de gente,
> vozes que falam... falam, mas não se entende o que dizem, porque são
> línguas atroadas que falam, são os escravos da princesa moura, os
> espíritos da teiniaguá... Não há ninguém... não se vê ninguém: mas
> há mãos que batem. como convidando, no ombro do que entra firme, e
> que empurram, como ainda ameaçando, o que recua com medo...
> 
> Alma forte e coração sereno! Se entrares assim, se te portares lá
> dentro assim, podes então querer e serás servido!
> 
> Mas governa o pensamento e segura a língua: o pensamento
> dos homens é que os levanta acima do mundo, e a sua
> língua é que os amesquinha...
> 
> Alma forte e coração sereno!... Vai!
> 
> Blau, o guasca,
> 
> apoiou-se; meneou o flete e por de seguro ainda pelo cabresto
> prendeu-o a um galho de camboim que verga sem quebrar-se; rodou as
> esporas para o peito do pé; aprumou de jeito o facão;
> santiguou-se, e seguiu...
> 
> Calado fez; calado entrou...
> 
> O sacristão levantou-se e o seu corpo desfez-se em sombra
> na sombra da reboleira.
> 
> O silêncio que então se desdobrou era como o vôo parado das corujas:
> metia medo...
> 
> VII
> 
> Blau Nunes foi andando.
> 
> Entrou na boca da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa
> da ramaria  que se cruzava nela; p’ra o fundo era tudo escuro...
> 
> Andou mais, num corredor dumas braças: mais, ainda;
> sete corredores ancião deste.
> 
> Blau Nunes foi andando.
> 
> Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu.
> Sempre escuro. Sempre silêncio.
> 
> Mãos de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro.
> 
> Numa cruzada de carreiros  sentiu ruído de ferros que se chocavam,
> tinir de muitas espadas, seu conhecido.
> 
> Por então o escuro ia já mudado num luzir de vaga-lume.
> 
> Grupos de sombras com feitio de homens pelavam de morte; nem pragas
> nem fuzilar d’olhos raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas
> iam talhando umas nas outras, no silencio.
> 
> Blau teve um relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto
> de face branca e tristonha — Alma forte, coração sereno...
> 
> E meteu o peito por entre o espinheiro, sentiu o corte delas, o fino
> das pontas, o redondo dos copos... mas passou, sem nem olhar aos
> lados, num entono, escutando porém choros e gemidos dos peleadores.
> 
> Mãos mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas.
> 
> Outro mais ruído nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o
> rangido do cabrestilhos das suas esporas.
> 
> Blau Nunes foi andando.
> 
> Andando numa luz macia, que não dava sombra como os caminhos dum
> cupim era a furna, dando corredores sem conta, a todos os rumos; e
> ao desembocar do em que vinha, justo num cotovelo dele, saltaram-lhe
> aos quatro lados jaguares e pumas, de goela aberta e bafo quente,
> patas levantadas mostrando as unhas, a cola mosqueando,
> numa fúria...
> 
> E ele meteu o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras
> roçarem-lhe o corpo; passou sem pressa nem vagar, escutando os urros
> que p’ra traz iam ficando e morrendo sem eco...
> 
> As mãos, de braços que ele não via, em corpos que não sentia, mas
> que, certo o ladeavam, as mãos iam-lhe sempre afagando os ombros,
> sem bem o empurrar, mas atirando-o para adiante... adiante...
> 
> A luz ia na mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela...
> 
> Blau Nunes foi andando.
> 
> Agora era um lançante e ao fim dele parou num redondel topetado de
> ossamentas de criaturas. Esqueletos, de pé, encostados uns nos
> outros, muitos, derreados , como numa preguiça; pelo chão caídas,
> partes deles, despencadas; caveiras soltas, dentes branqueando,
> tampos de cabeças, buracos de olhos; pernas e pés em passo de dança,
> alcatras e costelas meneando-se num vagar compassado,
> outras em saracoteio...
> 
> Aí o seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o sinal
> da cruz;... porém — alma forte, coração sereno! — meteu o peito e
> passou entre as ossadas, sentindo o bafio que elas soltavam das suas
> juntas bolorentas.
> 
> As mãos, aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra
> vez os ombros...
> 
> Blau Nunes foi andando.
> 
> O chão ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem
> aumentar a respiração; e num desvão, a modo dum forno, teve de
> passar por uma como porta dele, e aí dentro era um jogo de línguas
> de fogo, vermelho e forte, como atiçado com lenha de nhanduvái; e
> repuxos d’água saídos das paredes batiam nele e referviam, chiando,
> fazendo vapor; um ventarrão rondava ali dentro, enovelando águas e
> fogos, que era uma temeridade cortar aquele turbilhão...
> 
> Outra vez ele meteu o peito e passou, sentindo o mormaço
> das labaredas.
> 
> As mãos do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer—
> muito bem!—
> 
> Blau Nunes foi andando.
> 
> Já tinha perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no
> silêncio como que um peso de arrobas; a claridade mortiça, porém já
> se lhe assentara nos olhos e tanto, que viu adiante, em sua frente e
> caminho um corpo enroscado, sarapintado e grosso, batendo no chão
> uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu.
> 
> Era boicininga, guarda desta passajem, que levantava a cabeça
> flechosa, lanceando o ar com a língua de cabelos, preta, firmando no
> vivente a escama dos olhos, luzindo, preto, como botões de veludo...
> 
> Das duas prezas recurvas, grandes como as aspas dum tourito de
> soberano, pingava uma gota escura que era a peçonha sobrante por um
> muito jejum de mortandade, lá fora...
> 
> A boicininga — a cascavel amaldiçoada — toda se meneava,
> chocalhando os guizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua,
> como por prova...
> 
> Uma serenada de suor minou na testa do paisano... porém ele meteu o
> peito e passou, vencendo sem olhar, a boicininga altear-se e
> descair, chata e tremente... e passou, ouvindo o chocalho da que não
> perdoa, o silbido da que não esquece...
> 
> E logo então, que era este o quinto passo de valentia que vencera
> sem temer — de alma forte e coração sereno — logo então as mãos
> voantes anediaram-lhe o cabelo, palmearam-lhe mais
> chegadas os ombros.
> 
> Blau Nunes foi andando.
> 
> Desembocou num campestre, de gramado fofo, que tinha um cheiro doce
> que ele não conhecia; em toda a volta arvores enfloradas e
> estadeando frutos; passarinhada de penas vivas e cantoria alegre;
> veadinhos mansos; capororocas e outro muito bicharedo, que recreava
> os olhos; e listando a meio o campestre, brotado duma roca coberta
> de samambaias, um olho d'água, que saía em toalha e logo corria em
> riachinho, pipocando o quanto-quanto sobre areião solto, palhetado
> de malacachetas brancas, como uma farinha de prata...
> 
> E logo uma roda de moças — cada qual que mais cativa! — uma ronda
> alegre saiu dentre o arvoredo, a cercá-lo, a seduzi-lo, a ele Blau,
> gaúcho pobre, que só mulheres de anáguas resvalonas conhecia...
> 
> Vestiam-se em frouxo trançado de flores, outras de fios de contas,
> outras na própria cabeleira solta...; estas chegavam-lhe à boca
> caramujos estrambóticos, cheios de bebida recendente e fumegando
> entre vidros frios, como de geada; dançavam outras num requebro
> marcado como por música... outras lá, acenavam-lhe para a lindeza
> dos seus corpos, atirando no chão esteiras macias, num convite
> aberto e ardiloso...
> 
> Porém ele meteu o peito e passou, com as frontes golpeando, por
> motivo do ar malicioso que seu bofe  respirava...;
> 
> Blau Nunes foi andando.
> 
> Entrou no arvoredo e foi logo rodeado por uma tropa de anões,
> cambaios e cabeçudos, cada qual melhor para galhofa, e todos em
> piruetas e mesuras, fandangueiros e volantins, pulando como
> aranhões, armando lutas, fazendo caretas impossíveis
> para rostos de gente...
> 
> Porém o paisano meteu o peito neles e passou, sem nem sequer um ar
> de riso no canto dos olhos...
> 
> E com este, que era o último, contou os sete passos das provas.
> 
> E logo então, aqui, surdiu-lhe em frente o vulto de face tristonha e
> branca, que, certo, lhe andara nas pisadas, de companheiro — sem
> corpo — e sem nunca lhe valer nos apuros do caminho;
> e tomou-lhe a mão.
> 
> E Blau Nunes foi seguindo.
> 
> Por detrás de um  cortinado como de escamas de peixe-dourado, havia
> um socavão reluzente. E sentada numa banqueta transparente,
> fogueando cores como as do arco-íris, estava uma velha, carquincha e
> curvada, e como tremendo de caduca.
> 
> E segurava nas mãos uma varinha branca, que ela revirava e tangia, e
> atava em nós que se destorciam, ficando sempre linheira.
> 
> — Cunhã, disse o vulto, o paisano quer!
> 
> — Tu, vieste; tu, chegaste; pede, tu, pois! respondeu a velha.
> 
> E moveu e ergueu o corpo magro, dando estalos nas juntas e levantou
> a varinha para o ar; logo o condão coriscou por sobre ela uma chuva
> de raios, mais que como num temporal desfeito das nuvens carregadas
> cairia. E disse:
> 
> — Por sete provas que passaste, sete escolhas dar-te-ei...
> Paisano, escolhe!
> 
> Para ganhar a parada em qualquer jogo;... de naipes, que as mãos
> ajeitam, de dados, que a sorte revira, de cavalos, que se cotejam,
> do osso, que se sopesa, da rifa... queres?
> 
> — Para tocar a viola e cantar... amarrando nas cordas dela o
> coração das mulheres que te escutarem..., e que hão de sonhar
> contigo, e ao teu chamado irão — obedientes, como aves varadas pelo
> olhar das cobras — deitar-se entregues ao dispor dos teus beijos,
> ao apertar dos teus braços, ao resfolegar dos teus desejos...
> queres?
> 
> — Não! respondeu a boca, por mandado só do ouvido...
> 
> — Para conhecer as ervas, as raízes, os sucos das plantas e assim
> poderes curar os males dos que tu estimares ou desfazer a saúde dos
> que aborreceres;... e saber simpatias fortes para dar sonhos ou
> loucura, para tirar a fome, relaxar o sangue, e gretar a pele e
> espumar os ossos... ou para ligar apartados, achar cousas perdidas,
> descobrir invejas...; queres?
> 
> — Não!
> 
> — Para não errar o golpe — de tiro, lança ou faca — em teu
> inimigo, mesmo no escuro ou na distância, parado ou correndo, destro
> ou prevenido, mais forte que tu ou astucioso...; queres?
> 
> — Não!
> 
> — Para seres ricaço de campo e gado e manadas de todo o pelo;
> ... queres?
> 
> — Não!
> 
> — Para fazeres pinturas em tela, versos harmoniosos, novelas de
> sofrimentos, autos de chocarrice, músicas de consolar, lavores no
> ouro, figuras no mármor’... queres?
> 
> — Não!
> 
> — Pois que em sete poderes te não fartas nada te darei, porque do
> que te foi prometido nada quiseste. Vai-te!
> 
> Blau nem se moveu; e, carpindo dentro em si a própria rudeza, pensou
> no queria dizer e não podia e que era assim:
> 
> —Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!... És
> tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de
> mim, em volta de mim, superior a mim... Eu te queria a ti,
> teiniaguá encantada!...
> 
> Mas uma escuridão fechada, como nem noite a mais escura dá parelha,
> caiu sobre o silêncio que se fez, e uma força torceu o paisano.
> 
> Blau Nunes arrastou um passo e outro e terceiro; e desandou caminho;
> e quanto ele andara em voltas e contravoltas, em subidas e descidas,
> tanto em direitura foi bater na boca da furna por onde havia
> entrado, sem engano.
> 
> E viu atado e quieto o seu cavalo; em roda as mesmas restingas, ao
> longe os mesmos descampados mosqueados de pontas de gado, a um lado,
> o encordoado das coxilhas, a outro, numa aberta entre matos um claro
> prateado, que era a água do arroio.
> 
> Memorou o que tinha acabado de ver e de ouvir e de responder;
> dormido, não tinha, nem susto lhe tirara o entendimento.
> 
> E pensou que tendo tido oferta  de muito não lograria nada por
> querer tudo;... e num arranco de raiva cega decidiu outra investida.
> 
> Votou-se para entrar de novo... mas bateu co’o peito na parede dura
> do serro. Terra maciça, mato cerrado, capins, limos... e nenhuma
> floresta, nem brecha nem buraco, nem furna, caverna, toca, por onde
> escorresse um corpinho de guri, quanto mais passasse
> porte de homem!...
> 
> Desanimado e penaroso, compôs o cavalo e montou; e ao dar de rédea
> apareceu-lhe pelo lado de laçar o sacristão, o vulto de face branca
> e tristonha, que tristemente estendeu-lhe a mão, dizendo:
> 
> — Nada quiseste; tiveste alma forte e coração sereno, tiveste, mas
> não soubeste governar o pensamento nem segurar a língua:...
> 
> Não te direi se bem fizeste ou mal.
> 
> Mas como és pobre e isso te aflige, aceita este meu presente,
> que te dou.
> 
> É uma onça de ouro que está furada pelo condão mágico; ele te dará
> tantas outras quantas quiseres, mas sempre de uma e nunca mais que
> uma por vez; guarda-a em lembrança de mim!
> 
> E o corpo do sacristão encantado desfez-se em sombra
> na sombra da reboleira...
> 
> Blau Nunes meteu na guaiaca a onça furada, e deu de rédea.
> 
> O sol tinha cambado e o Serro do Jarau já fazia sombra comprida
> sobre os bamburrais e restingas que lhe formavam assento.
> 
> VII
> 
> Na troteada para o posto em que morava, um ranchote de beira chão
> tendo como porta um couro —, Blau rumeou para uma venda grande que
> sortia aquele vizindário, mesmo a troco de courama, cerda ou algum
> tambeiro; e como vinha de garganta seca e a cabeça atordoada
> mandou botar uma bebida.
> 
> Bebeu; e puxou da guaiaca a onça e pagou; era tão mínima a despesa e
> o câmbio que veio, tanto, que pasmou, olhando para ele, de tão
> desacostumado que andava de ver dinheiro tanto, que chamasse seu...
> 
> E de dedos engatanhados socou-o todo para dentro do afogado.
> 
> Calado, montou de novo, retirando-se.
> 
> No caminho foi pensando nas todas cousas que carecia e que iria
> comprar. Entre aperos e armas e roupas, um lenço grande e umas
> botas, outro cavalo, umas esporas e embelecos que pretendia, andava
> tudo por uma mão cheia de cruzados; e a si próprio perguntava se
> aquela onça encantada, dada para indez, teria mesmo o condão de
> entropilhar outras muitas, tantas como as que precisava, e mais
> ainda, outras e outras que seu desejo fosse despencando?!...
> 
> Chegou ao posto, e como homem avisado, não falou do que fizera
> durante o dia, apenas do boi barroso, que campeiou e não achou; e no
> seguinte, logo cedo saiu a campeiar a prova do prometido.
> 
> Naquele mesmo negociante ajustou umas roupas tafulonas; e mais uma
> adaga de cabo e bainha com anéis de prata; e mais as esporas
> e um rebenque de argolão.
> 
> Toda a compra passava de três onças.
> 
> E Blau, as frontes latejando, a boca cerrada, num aperto que lhe
> fazia doer o carrinho, piscando os olhos, a respiração atropelada,
> todo ele numa desconfiança, Blau, por debaixo do seu balandrau
> remendado começou a gargantear a guaiaca... e caiu uma onça... e
> outra... e outra!... As quatro, que por agora eram tão de jeito!...
> 
> Mas não caíram duas e duas ou três e uma, ou as quatro, juntas,
> porém sim de uma a uma, as quatro, de cada vez só uma...
> 
> Voltou ao rancho com a maleta atochada, mas como homem avisado,
> não falou do acontecido.
> 
> No outro dia seguiu a outro rumo, para outro negociante mais forte e
> de prateleiras mais variadas. Já levava alinhavado o sortimento que
> ia fazer, e muito em ordem foi encomendando o aparte das cousas,
> tendo o cuidado para não querer nada de cortar, só peças inteiras,
> que era para, no caso de falhar a onça, recuar da compra, fazendo um
> feio, é verdade, mas não sendo obrigado a pagar estrago algum. Notou
> a conta, que andava por quinze onças, uns cruzados p’ra menos.
> 
> E outra vez, por debaixo do seu balandrau remendado, começou a
> gargantear a guaiaca, e logo lhe foi caindo na mão uma onça... e
> segunda... outra... e quarta, mais outra, e sexta... e assim de uma
> em uma, as quinze necessárias!
> 
> O negociante ia recebendo e alinhando sobre o balcão conforme vinham
> minando da mão do pagador, e quando estavam todas disse,
> entre risonho e desconfiado:
> 
> — Cuê-pucha!... cada das onça das suas parece que é um pinhão,
> que é preciso descascar à unha!...
> 
> No terceiro dia passou na estrada uma cavalhada; Blau fez parar a
> tropa e ajustou uma quadrilha, apartada por ele, à sua vontade, e
> como facilitou o preço, fechou-se o trato.
> 
> Ele e o capataz, sós no meio da cavalhada iam fazendo mover-se os
> animais; no apinhado de todas Blau marcava a cabeça que mais lhe
> agradava pelo focinho, pelos olhos, pelas orelhas; com um sovéu
> fino, de armada pequena, reboleava por dentro e ia, certo, laçar o
> bagual escolhido; se ainda, sem ovas e bons cascos, aprazia-lhe,
> tirava-o então, como seu, para o potreiro do piquete.
> 
> Olho de campeiro não errou vez alguma na escolha e trinta cavalos,
> a flor, foram apartados custando quarenta e cinco onças.
> 
> E enquanto a tropa verdeava e bebia, os tratistas foram para
> a sombra duma figueira que havia na bira da estrada.
> 
> Blau por debaixo do seu balandrau remendado, ainda desconfiado,
> começou a gargantear a guaiaca... e foi logo aparando onça por onça,
> uma, três, seis, dez, dezoito, vinte e cinco, quarenta,
> quarenta e cinco!...
> 
> O vendedor, estranhando aquela novidade e demora,
> não se conteve e disse:
> 
> —Amigo! As suas onças parecem todas de gerivá, que só cai
> uma de cada vez!...
> 
> Depois desses três dias de prova, Blau acreditou na onça encantada.
> 
> Arrendou um campo e comprou o gado, p’ra mais de dez mil cabeças,
> aquerenciando.
> 
> O negócio era muito acima de três mil onças, a pagar no recebimento.
> 
> Aí o coitado perdeu quase o dia inteiro a gargantear a guaiaca e a
> aparar onça a onça, uma atrás da outra, sempre uma a uma!...
> 
> Cansou-lhe o braço; cansou-lhe o corpo; não falhava golpe, mas tinha
> de ser como martelada, que não se dá duas ao mesmo tempo...
> 
> O vendedor, à espera que Blau completasse a soma, saiu, mateou,
> sesteou; e quando sobre à tarde voltou à ramada, lá estava ele
> ainda aparando onça traz onça...
> 
> Ao escurecer estava completo o ajuste.
> 
> Começou a correr a fama da sua fortuna. E todos espantavam-se, por
> ele, gaúcho despilchado de ontem, pobre, que só tinha de seu as
> chilcas, afrontar os abonados, assim, do pé para a mão... E também
> era falado do seu esquisito modo de pagar — que pagava sempre,
> valha a verdade — só de onça por onça, uma depois de outra
> e nunca ao menos duas, acolheradas!...
> 
> Aparecia gente a propor-lhe negócio, ainda de pouco preço, só para
> ver como aquilo era; e para todos era o mesmo mistério...
> 
> Mistério para o próprio Blau... muito rico... muito rico... mas de
> onça em onça, como tala de gerivá, que só cai de uma vez... como
> pinhão da serra, que só descasca de um a um!...
> 
> Mistério para Blau, muito rico... muito rico... mas todo dinheiro
> que ele recebia, que entrava das vendas feitas, todo dinheiro que
> lhe pagavam a ele, todo desaparecia, guardado na arca de ferro,
> desaparecia como desfeito em ar...
> 
> Muito rico... muito rico das onças que precisasse, e nunca faltaram
> para gastar no que lhe parecesse: bastava-lhe gargantear a guaiaca,
> e elas começavam a pingar;... mas nem uma das que recebia lhe
> ficava, todas evaporavam-se, como água em tijolo quente...
> 
> IX
> 
> Então começou a corre um boquejo de ouvido para ouvido... e era que
> ele tinha parte com o diabo, e que o dinheiro dele era maldito
> porque, todos com quem tratava e recebiam das suas onças, todos
> entravam ao depois a fazer maus negócios e todos perdiam em
> prejuízos exatamente a quantia igual à de suas mãos recebida.
> 
> Ele comprava e pagava e pagava à vista, é certo; o vendedor contava
> e recebia, é certo, mas o negócio empreendido por esse valor
> era prejuízo, garantido.
> 
> Ele vendia e recebia, é certo; mas o valor recebido, que ele
> guardava e rondava sumia-se como um vento, e não era roubado nem
> perdido; era sumido, por si mesmo...
> 
> O boquejar foi alastrando, e já diziam que aquilo, por certo, era
> mandinga arrumada na salamanca do Jarau, onde ele foi visto mais de
> uma feita... e que lá é que se jogava a alma contra a sorte...
> 
> E os mais vivarachos já faziam suas madrugadas sobre o Jarau; outros
> mais sorros, p’ra lá tocavam-se ao escurecer; outros, atrevidaços
> iam à meia-noite, outros ainda ao primeiro cantar dos galos...
> 
> E como nesse carreiro de precatados cada um fazia por ir de mais
> escondido, sucedeu que como sombras se pechavam entre as sombras das
> reboleiras, sem atinar co’a salamanca, ou sem topete para, na
> escuridão, quebrar aquele silêncio, chamando o santão,
> num grito alto...
> 
> No entanto, Blau começou a ser tratado de longe, como
> um chimarrão rabioso...
> 
> Já não tinha com quem pautear; churrasqueva solito, e mateava,
> rodeado dos cachorros, que uivavam, às vezes um, às vezes todos...
> 
> A peonada foi saindo e conchavando-se noutras partes; os negociantes
> nada compravam-lhe e negaceavam para vender-lhe; os andantes
> cortavam o campo, para não pararem em seus galpões...
> 
> Blau deu em cismar, e cisma foi que resolveu acabar com aquele
> cerco de isolamento, que o ralava e esmorecia...
> 
> Montou a cavalo e foi ao serro. Na trepada sentiu nos dois lados
> barulho nos bamburrais e nas restingas, mas pensou que seria alguma
> ponta de gado chucro que disparava e não fez caso; foi trepando, nem
> guaraxaim corrido, nem tatu vadio; era gente, que se escondia
> uns dos outros e dele...
> 
> Assim que chegou à reboleira do mato, tão sua conhecida e recordada,
> e como chegou, deu de cara com o vulto de face branca e tristonha, o
> sacristão encantado, o santão.
> 
> Ainda desta vez, como era ele que chegava, a ele competia louvar;
> saudou, como da outra:
> 
> — Laus’ Sus’ Cris’!...
> 
> — Para sempre, amém! respondeu o vulto.
> 
> Então Blau, de a cavalo, atirou-lhe ao* pés a onça de ouro, dizendo:
> 
> — Devolvo! Prefiro a minha pobreza dantes à riqueza desta onça, que
> não se acaba, é verdade, mas que parece amaldiçoada, porque nunca
> tem parelha e separa o dono dos outros donos de onças!... Adeus!
> Fica-te com Deus, sacristão!
> 
> — Seja Deus louvado! disse o vulto e caiu de joelhos, de mãos
> postas, como numa reza.
> 
> Pela terceira vez falaste no Nome Santo, tu, paisano, e com ele
> quebraste o encantamento!... Graças! Graças! Graças!...
> 
> E neste mesmo instante, que era o da terceira vez que Blau saudava
> no Nome Santo, neste mesmo momento ouviu-se um imenso estouro, que
> retumbou naquelas vinte léguas em redor; o Serro do Jarau, tremeu de
> alto a baixo, até as suas raízes, nas profundas da terra, e logo em
> cima, no chapéu do espigão, apareceu, cresceu, subiu aprumo-se,
> brilhou, apagou-se uma língua de fogo, alta como um pinheiro,
> apagou-se e começou a sair fumaça negra, em rolos grandes, que o
> vento  ia tocando para longe, por cima do encordoado das coxilhas,
> sem rumo feito, porque a fumaceira inchava e desparramava-se no ar,
> dando voltas e contravoltas, torcendo-se, enroscando-se em altos e
> baixos, num desgoverno, como uma tropa de gado alçado, que espirra e
> se desmancha como água passada em regador...
> 
> Era a queima dos tesouros da salamanca, como dissera o sacristão.
> 
> Sobre as caídas do Serro levantou-se um vozerio e tropel: eram os
> maulas que andavam rastreiando a furna encantonada e que agora
> fugiam desguaritados, como filhotes de perdiz...
> 
> X
> 
> Para os olhos de Blau o serro ficou como vidro transparente, e então
> viu ele o que lá dentro se passava: os brigões, os jaguares, os
> esqueletos, os anões, as lindas moças, a boicininga, tudo, torcido e
> enovelado, amontoado, revolvido, corcoveava dentro das labaredas que
> subiam e apagavam-se dentro dos corredores, cada vez mais carregados
> de fumaça... e urros, gritos, tinidos, silbidos, gemidos, tudo se
> confundia no tronar da voz maior que estrondeava no cabeço
> empenachado do serro.
> 
> Ainda uma vez a velha carquincha transformou-se na teiniaguá... e a
> teiniaguá na princesa moura... a moura numa tapuia formosa;... e
> logo o vulto de face branca e tristonha tornou à figura do sacristão
> de S. Tomé, o sacristão, por sua vez, num guasca  desempenado...
> 
> E assim, quebrado o encantamento que suspendia fora da vida das
> outras aquelas criaturas vindas do tempo antigo e lugar distante,
> aquele par, juntado e tangido pelo Destino,10 que é o senhor de todos
> nós, aquele par novo, de mãos dadas como namorados, deu as costas ao
> seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até a várzea
> limpa, plana e verde, serena e amornada pelo sol claro, toda bordada
> de boninas amarelas, de bibis roxas, e malmequeres brancos, como uma
> cancha convidante para uma cruzada de ventura, em viagem de alegria,
> a caminho de repouso!...
> 
> Blau Nunes também não quis mais ver; traçou sobre o seu peito uma
> cruz larga, de defesa, na testa do seu cavalo outra, e deu de rédea
> e despacito  foi baixando a encosta do serro, com o coração aliviado
> e retinindo como se dentro dele cantasse o passarinho verde...
> 
> E agora estava certo de que era pobre como dantes que comeria em paz
> e seu churrasco...; e em paz o seu chimarrão, em paz a sua sesta,
> em paz a sua vida!...
> 
> -------------------------------------------------------------
> 
> Assim acabou a salamanca do Serro do Jarau, que aí durou duzentos
> anos,11 tantos se contam desde o tempo das Sete Missões,
> em que estas cousas principiaram.
> 
> Anhangá-pitã, também, desde aí, não foi mais visto. Dizem que
> desgostoso, anda escondido, por não haver tomado bem tenência que
> a teiniaguá era mulher...
> 
> *Elucidação*
> 
> *1 Serro do Jarau* —Na Coxilha Geral de Sant’Ana, sobre a linha
> divisória com a República do Uruguai.
> 
> Fica um pouco ao N. da cidade de Quaraí, em campos da família
> Assumpção, de Pelotas. É o ponto culminante (...metros) daquela
> zona, sendo avistado de muito longe. No fim da guerra do
> Farrapos (1845) notaram-se sobre o espigão do Serro, e parecendo
> dele sair, grossos rolos de fumaça. É essa a primeira notícia
> que há do fenômeno.
> 
> Outras combustões registraram-se depois, notadamente por 1904,
> em que se disse mesmo que havia expulsão de vapores ígneos.
> 
> *2 Salamanca* —Furna encantada; provém a denominação da  cidade
> de Salamanca, na Espanha, onde existia, diz-se, uma célebre
> escola de magia, no tempo dos Mouros. A seguir a tradição local,
> o célebre caudilho Bento Manoel deveu a sua sorte guerreira,
> política, de fortuna ao conchavo que ajustou na salamanca do
> Jarau. Antes dele, alguns, mas depois, nenhum outro aí  obteve
> mais nada, desde — “que o serro pegou fogo” — quando acabou
> o encantamento.
> 
> *3 Laus’ Sus’ Cris’!* —Forma abreviada e estranha, é certo,
> porém expressiva da saudação — Louvado seja Jesus Cristo!
> Ouvimo-la inúmeras vezes, em nossa infância.
> 
> *4 Boi barroso* —É a vaga relembrança de um boi encantado, que
> aparecia porém nunca era encontrado por mais procurado que
> fosse; e também denominação de uma antiga dança camponesa, cuja
> música era ornada de versos que eram cantados durante
> o folguedo.
> 
> *5 Anhangá-pitã* — Literalmente, do tupi-guarani: diabo
> vermelho.
> 
> *6 Teiniaguá* — Idem: lagartixa. A teiniaguá encantada também
> era chamada — carbúnculo, farol — e trazia engastada na cabeça
> “uma pedra preciosa que cintilava como brasa e de cor
> de rubim...
> 
> Semelhante animal nunca puderam apanhar nem vivo nem morto,
> porque por suas irradiações desvia os olhos e mãos dos
> perseguidores”. (Rev°. C. Teschauer, S. J. na Rev. do
> Instº. do Ceará, 1911).
> 
> *7 Zaorís* — V. adiante a lenda referente.
> 
> *8 Charruas* — Tribo guerreira, indômita, acantonada sobre a
> Coxilha de Aedo, e dominando o rio Quaraí até o Uruguai e para
> L. até o rio Negro. As guerras e contínuas correrias que desde
> 1750 até mais de um século depois afligiram o Rio Grande e o
> Estado Oriental dizimaram esta tribo (como a outras) hoje por
> bem dizer, extinta. Desse quase acabamento e a deturpação das
> lendas que entre tais gentes floresceram.
> 
> *9 Cidade de Santo Tomé* — Na Argentina; sobre o Uruguai, entre
> o Rio Icamaquã e a cidade rio-grandense de S. Borja.
> “Destruídas as reduções do Guaíra e expulsos pelos mamelucos,
> estabeleceram-se os missionários primeiro no centro do Rio
> Grande do Sul entre os rios Pardo e Jacuí. Mas só por poucos
> anos. Mais tarde, outra vez perseguidos e expulsos pelos mesmos,
> 
> refugiaram-se uns para as hodiernas Sete Missões, os outros para
> a margem direita do Uruguai, encorporando-se à redução de Santo
> Tomé, de cujas ruínas se levantou depois a cidade do mesmo nome,
> quase em frente de S. Borja”. (Revo. C. Teschauer, citado)
> Existe no arrabalde de S. Tomé a famosa sanga, que aponta como
> prova do acontecimento e poder da teiniaguá encantada.
> 
> *10 ,... tangido pelo Destino* — É característico este traço no
> indivíduo rio-grandense, que até por hábito doméstico emprega
> como vulgares as expressões — sorte, destino, fado — Na gente
> inculta torna-se curiosa a indistinta veneração prestada ao
> divino e ao diabólico, como forças superiores que atuam
> sobre os homens.
> 
> *11 ...aí durou duzentos anos, etc.* — Coincide com a
> lamentação do sacristão encantado a era do período do mais calmo
> das missões sobre o rio Uruguai, 1650, em que formou-se a lenda.
> 
> *O NEGRINHO DO PASTOREIO*
> _A Coelho Netto_
> 
> _Pelotas — 1 de janeiro, 1907_
> 
> _Meu caro patrício Sr. J. Simões Lopes Netto._
> 
> _Venho agradecer-lhe a dedicatória da lenda “O Negrinho do
> pastoreio” publicada no Correio Mercantil” de 26 de dezembro. Já
> conversamos sobre a necessidade que, todos quantos nos interessamos
> pela tradição temos de coligir as trovas e narrativas do velho
> tempo. Elas representam o sonho dos que passaram, são a bem-dizer o
> rastro das almas. Entendem muitos escritores que devem corrigir a
> afabulação e a forma de tais relíquias tirando-lhe o caráter
> ingênuo, o sabor suave que elas trazem de origem. O meu amigo não
> incorreu em tal culpa—procedeu como o file celta que, chamado para
> referir aos da “clan” as histórias dantanho, dizia-as repetindo com
> respeitosa observância da tradição tal como as ouvira dos maiores. E
> o que, sobretudo encanta no lindo raconto que me ofereceu, no qual
> transparece bem a alma do povo pastoral, é a simplicidade.— Lendo-a
> tive a impressão de estar ouvindo contada, em tom lento, por uma
> dessas velhinhas que são as conservadoras de muito primor da Poesia
> popular, tão rica em nossa pátria e tão desestimada._
> 
> _Reiterando os meus agradecimentos peço-lhe que continue a
> respigarem tão rica seara trazendo-nos outros presentes como o que
> me ofereceu com tanta generosidade._
> 
> _Muito seu agradecido_
> 
> _Coelho Neto_
> 
> O NEGRINHO DO PASTOREIO
> 
> Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem
> divisas nem cercas; somente numas volteadas se apanhava uma gadaria
> chucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...
> 
> Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de
> onças  e meias doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla
> e muito mau, muito.
> 
> Não dava posada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no
> inverno o fogo de sua casa não fazia brasas, as geadas e o minuano,
> podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a
> sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora
> bebia água das suas cacimbas.
> 
> Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de boa
> vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de
> conchavar-se com ele, porque só dava para comer um churrasco de
> tourito magro, farinha grossa e erva caúna e nem um naco de fumo...
> e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira que parecia que
> era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...
> 
> Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino
> cargoso como uma mosca, para um baio de cabos negros, que era o seu
> parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito
> bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam
> somente o —Negrinho.
> 
> A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia
> afilhado da Virgem, Senhora nossa, que é a madrinha
> de quem não a tem.
> 
> Todas as madrugadas o Negrinho galopeava parelheiro; depois conduzia
> aos avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino,
> que o judiava e se ria.
> 
> ***
> 
> Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreia com um
> seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro
> que não, que não! que a parada devia ser do dono do cavalo que
> ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada,
> mil onças de ouro.
> 
> No dia aprazado, na cancha  da carreira havia gente
> como em festa de santo grande.
> 
> Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão
> perfeito era e bem balançado cada um dos animais. Do baio era fama
> que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas
> crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se lhe viam as
> patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha,
> mais agüente, e que desde a largada ele ia ser como um laço
> que se arrebenta...
> 
> As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam
> aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.
> 
> — Pelo baio! Luz e doble!...
> 
> — Pelo mouro! Doble e luz!...
> 
> Os corredores fizeram suas partidas à vontade e depois as obrigadas;
> e quando foi a última na última, fizeram ambos sua senha e se
> convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os
> parelheiros menando cascos, que parecia uma tormenta...
> 
> — Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por
> onde passava a parelha veloz, compassada como n’uma colhéra.
> 
> — Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se o
> sete léguas perde meu senhor me mata! Hip! hip! hip!...
> 
> E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.
> 
> —Se o corta-vento ganhar é só para os pobres! retrucava o outro
> corredor. Hip! hip!
> 
> E cerrava as esporas no mouro.
> 
> Mas os fletes corriam compassados como numa colhéra. Quando foi na
> última quadra, o mouro vinha arrematado e baio vinha aos tirões...
> mas sempre juntos, sempre emparelhados.
> 
> E a duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou  de
> sopetão, pôs-se em pé e fez uma cara-volta,, de modo que deu ao
> mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz aberta! E
> o Negrinho, de em pelo, agarrou-se como um ginataço.
> 
> —Foi mal jogo! gritava o estancieiro
> 
> —Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria.
> 
> A gauchada estava dividida: mais de um toreana coçou o punho da
> adaga, mais de desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas
> para o peito do pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da
> guerra de Sapé-Tiaraiú, era um juiz macanudo, que já tinha visto
> muito mundo. Abanado a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem.
> 
> —Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio,
> ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem
> gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!
> 
> Não havia o que alegar. Despeitado e furioso o estancieiro pagou a
> parada, à vista de todos atirando as mil onças de ouro sobre o
> poncho do seu contrário, estendido no chão.
> 
> E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou
> distribuir tambeiros e leiteiras, covados de baetas e baguais e deu
> de resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras
> seguiram com os changueiros que havia.
> 
> ***
> 
> O estancieiro retirou-se para sua pobre casa e veio pensando,
> pensando, calado, em todo caminho. A cara dele vinha lisa, mas o
> coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado e meia
> espalda... O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.
> 
> E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos
> pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
> 
> Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha
> falou assim:
> 
> — Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta
> dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de tordilhos
> negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!
> 
> O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.
> 
> Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho,
> varado de fome e já sem força nas mãos, enleiou a soga num pulso e
> deitou-se encostado a cupim.
> 
> Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar e
> todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E
> uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem
> barulho nas asas.
> 
> O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua
> madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.
> 
> E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o
> Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três Marias; a
> estrela d’alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e
> farejaram o Negrinho, e cortaram a guasca da soga.  O baio sentindo-
> se solto rufou a galope, e toda tropilha com ele, escaramuçando no
> escuro e desaguaritando-se nas canhadas.
> 
> O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram,
> dando berros de escárnio.
> 
> Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se
> enxergava: era a cerração que tapava tudo.
> 
> E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.
> 
> ***
> 
> O menino malévola foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não
> estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos
> pulsos a um palanque e dar-lhe uma surra de relho.
> 
> E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o
> perdido. Regulando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua
> madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou  o coto de
> vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo.
> 
> Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas
> restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando
> cera benta no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram
> tantas que clareavam a terra e as manadas chucras não disparavam...
> Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos
> relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por
> diante a tropilha, até coxilha que o seu senhor lhe marcara.
> 
> E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu...
> 
> Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo
> instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua
> madrinha, o negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas
> agoureiras nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos
> maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou
> os cavalos, que se dispersaram, disparando campo fora, retouçando e
> desguaritando-se nas canhadas.
> 
> O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai
> que os cavalos não estavam lá...
> 
> E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.
> 
> ***
> 
> O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um
> palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe até ele
> não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo
> escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e
> Nossa Senhora, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma
> música, e pareceu que morreu...
> 
> E como já e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o
> estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um
> formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o
> sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas; e quando elas,
> raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo,
> é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.
> 
> Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e
> que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes
> mil onças de ouro... e que tudo isto cabia folgado dentro de um
> formigueiro pequeno...
> 
> Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros
> e a casca das frutas.
> 
> Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto.
> 
> E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o
> mesmo sonho.
> 
> ***
> 
> A peonada bateu o campo, porém ninguém achou a tropilha
> e nem rastro.
> 
> Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava
> do corpo escravo.
> 
> Qual não foi o seu grande espanto, quando chagado perto, viu na boca
> do formigueiro o Negrinho de pé com a pele lisa, perfeita, sacudindo
> de si as formigas que o cobriam ainda!... O Negrinho, de pé, e ali
> ao lado o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta
> cordilhos... e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho,
> o estancieiro viu a madrinha dos que não a tem, viu a Virgem, Nossa
> Senhora, tão serena, posada na terra, mas mostrando que estava no
> céu... Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.
> 
> E o negrinho, sarado e risonho, pulando de em pelo e sem rédeas,
> no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.
> 
> E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não
> chorou, e nem se riu.
> 
> ***
> 
> Correu no vizindário, a nova do fadário e da triste morte do
> Negrinho, devorado na panela do formigueiro.
> 
> Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento,
> começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...
> 
> E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas
> dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que
> cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas,
> mascates e carreteiros, todos davam notícia — da mesma hora — de
> ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de
> tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pelo,
> em um cavalo baio!...
> 
> Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do
> judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o
> que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só
> entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar
> a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e
> salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia,
> sem ninguém ver.
> 
> ***
> 
> Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido
> em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas
> amigas; a sua tropilha esparramava-se; e um aqui, outro por lá, os
> seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do
> sol do terceiro dia, o baio relincha perto do seu ginete; o Negrinho
> monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece
> a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém,
> nem na ponta, nem na culatra.
> 
> ***
> 
> Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho,
> sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as
> restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas
> e desce às canhadas.
> 
> O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de
> jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto
> de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora,
> madrinha dos que não a têm.
> 
> Quem perder suas prendas nos campos, guarde a esperança: junto de
> algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o
> Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo — Foi por aí que eu perdi...
> Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi!...
> 
> Se ele não achar... ninguém mais.
> 
> *ARGUMENTO DE OUTRAS LENDAS MISSIONEIRAS E DO CENTRO E NORTE DO
> BRASIL.*
> 
> *MISSIONEIRAS*
> 
> *1*
> *A mãe do ouro*
> 
> O que é hoje serra de pedra já foi gente vivente: foi gente num
> tempo antigo, e por um castigo do céu, escureceu de repente e caída
> ficou onde estava...
> 
> Onde estavam sozinhos ficaram serros e serrotes; onde estavam
> apinhoscados ficou a serrania encordoada.
> 
> E os ossos aí estão acimentados, em pura pedra virados; a carne que
> os cobria deu terra negra; os cabelos são os matos, matos que bebem
> o sangue, que nos parece a nós apenas cascatinhas e vertentes; os
> lugares ocados que aparecem são os buracos do seu corpo, da sua boca
> e olhos, do seu nariz e ouvidos... As veias deram em ferro, e os
> nervos, como parte delicada, viraram-se ouro e são os veeiros
> amarelos que se entranham por aí abaixo, adentro da crosta, tal e
> qual os nervos estão entranhados na carnadura da gente.
> 
> Mas o que governa tudo, que não se sabe o que é, que é a Alma, que
> não morreu, essa é que é a Mão do Ouro, porque ela não entrou no
> castigo, e que defende os nervos dos castigados, os veeiros da
> fortuna, para que no dia do Perdão cada um ache o que seu é...
> 
> Aí está porque, quando troveja, tantos raios caem sobre sobre certos
> serros e tanto ventarrão esbarra neles:... é a Mãe do Ouro
> que chama socorro...
> 
> Às vezes rebenta um serro destes com estrondo grande; se é de noite,
> no fogo que se vê sair, vai a cuidadeira de mudança para outro; se é
> de dia, é sempre no pino do meio dia, e na luz do sol que encandeia
> os olhos, apenas sente-se o rumo que ela toma, só o rumo, mas não o
> lugar novo em que ela vai fazer morada nova.
> 
> *2*
> *Serros Bravos*
> 
> Dos mortos por seu castigo, alguns não ficaram bem mortos
> e ainda estrebucham, curtindo dores.
> 
> E como ainda estão meio vivos, quando algum vivente quer tirar para
> sua cobiça o ouro — que é os seus nervos e que doem — os Serros,
> esses, enfurecem-se, e por força de encantamentos somem-se, rasos,
> ou atiram de uns para outros, temporais tão medonhos, que eriçam o
> cabelo e prendem o passo dos homens, mesmo os mais desabusados.
> 
> E se eles teimam, morrem.
> 
> *3*
> *A casa de M’bororé*
> 
> Dentro do mato grosso, mato velho e crescido, sem plantas pequenas
> dentro, aí, só há uma luz pouca, tirante a verde e a cinzento: e
> nenhuma árvore faz sombra, porque a  ramaria de todas faz peneira
> por onde passa o sol, que nunca enxerga o chão...
> 
> Dentro desse mato, no mais tupido dele, há uma lombada redonda, como
> uma casca de caramburé; aí, em cima dela, há uma casa de pedra
> branca, branca como se encaliçada, e sem porta em nenhum lado nem
> janela em nenhuma altura.
> 
> Dentro da casa branca as salas estão lastradas de barras de ouro e
> barras de prata, do peso que é preciso dois homens para mover cada
> uma; e todas as juntas das pilhas estão tomadas de poeiras finas...
> 
> Por cima de tudo estão, em montes, tocheiros de ouro maciço e
> cálices e resplendores de santos; e salvas de prata
> e turíbulos e cajados.
> 
> Nos corredores, como prontos para içar para as cangalhas das mulas
> de carga, prontos, com as suas alças, estão lotes de surrões,
> socados de moedas de ouro, separadas em porções, metidas
> em bexigas de rês...
> 
> O rondador da casa branca anda dia e noite em redor dela; é um índio
> velho, cacique que foi, M’bororé, de nome, amigo dos santos padres
> das Sete Missões da serra que dá vertentes para o Uruguai.
> 
> Os padres foram tocados p’ra longe, levando só a roupa do corpo...
> mas a casa branca já estava feita, sem portas nem janelas... e
> M’bororé, que sabia tudo e era cacique, de noite, e precatado, com
> os seus guerreiros, carregou de todos os lugares para aquele as
> arrobas amarelas e as arrobas brancas, que não valiam a caça e a
> fruta do mato e a água fresca, e pelas quais os brancos de hoje
> matavam os nascidos aqui, e matavam-se uns aos outros.
> 
> M’bororé desprezava essas arrobas; mas como era amigo dos santos
> padres das Sete Missões, guardou tudo e espera por eles, rondando a
> casa branca, sem portas nem janelas.
> 
> Ronda e espera...
> 
> *4*
> *Zaorís*
> 
> Nosso Senhor Jesus Cristo Louvado Seja Para Sempre! Amém!
> 
> Ele foi preso na quarta-feira, sentenciado na quinta
> e crucificado na sexta.
> 
> E neste mesmo dia de sexta-feira, houve no Céu o julgamento dos
> carrascos de Nosso Senhor, e logo desceu à Terra o arcanjo S. Miguel
> com a ordem de castigar aos judeus; e o arcanjo passou essa ordem
> aos anjos que estavam de guarda à Cruz, onde Nosso Senhor estava
> pregado e morto.
> 
> Enquanto S. Miguel esteve na Terra deixou sobre ela muito brilho da
> sua couraça de couro e das suas armas, e muita ventania das
> suas asas de prata.
> 
> A gente já nascida estava condenada, pelo pecado de ter maltratado e
> morto Jesus Cristo. Mas as crianças ainda não nascidas não podiam
> sofrer castigo, porque não tinham culpa alguma. Porém os anjos da
> guarda da Cruz não sabiam disso e iam castigá-los da mesma forma,
> porque o arcanjo S. Miguel esquecera-se de avisar sobre as crianças
> que nascessem naquela dia, que era justamente o da sentença de Deus.
> 
> Por isso, a Virgem Maria, que sabia do esquecimento de S. Miguel, em
> memória Jesus não deixou os anjos da guarda da Cruz castigarem as
> crianças nascidas nessa Sexta-feira, e então, para diferenciá-las
> das outras, fez um milagre: e mandou que a ventania das asas de
> prata do arcanjo ventasse sobre o olhos dos que fossem nascendo
> nesse dia santo, e ao brilho das armas de ouro,
> que brilhasse sobre eles.
> 
> E desse jeito todos ficaram assinalados e puderam ser diferenciados
> dos nascidos na véspera, e bem diferençados, porque podiam ver
> através a  água até o seu fundo e através as muralhas e montanhas
> até o outro lado delas, porque tudo ficou transparente para eles.
> 
> E como a Virgem Maria não disse que subisse outra vez ao céu a
> ventania das asas de prata do arcanjo nem o brilho das suas armas de
> ouro, esse dons ficaram na terra, e em todas as sextas-feiras santas
> procuram os olhos das crianças recém-nascidas, que então ficam com o
> dom de ver no escuro e através qualquer parede de pedra,
> madeira, ou ferro...
> 
> Para esses, nada existe escondido ou enterrado que seus olhos não
> vejam, como os dos outros homens, de dia claro; e isso porque
> nasceram em sexta-feira santa: os Zaorís...*
> 
> * Em relação ao argumento destas lendas — 1. 4 — reportamo-nos ao
> raciocinado estudo do Sr. Pe. C. Teschauer sob o título — Lenda do
> Ouro — (Rev. do Instº. do Ceará, tom. XXV-1911).
> 
> *5*
> *O Angoéra*
> 
> O Angoéra, enquanto foi pagão, chamava-se desse nome; era um índio
> grande, forçudo e valente; mas era triste, carrancudo e calado.
> 
> Quando os Padres de Jesus, entraram no sertão da serra, corridos que
> vinham doutro rumo, foi Angoéra, o tapejara, que conduziu sem erro a
> companhia; e quando os padres sentaram pouso, batizou-se.
> 
> E foi padrinho M’bororé, que era cacique e já amigo, muito, dos
> padres. O nome de Angoéra, pagão, ficou sendo Generoso,
> nome cristão.
> 
> E foi como cobra que deixa a casca...
> 
> Angoéra, que era triste, deixou a casca da tristura, e como
> Generoso, nome bento ficou prazenteiro.
> 
> E ajudou a botar pedra no alicerce de todas as igrejas dos Sete
> Povos. E durou anos, esse ofício!... E ele sempre risonho
> e cantador.
> 
> Um dia, chamou o padre-cura, confessou-se e foi ungido
> de óleo santo e morreu.
> 
> Generoso morreu contente, pois a cara do seu cadáver guardou ar de
> riso; e foi muito chorado, porque tinha a estima de todos, por ser
> mui prazenteiro e brincador.
> 
> De forma que a sua alma saiu-lhe do corpo, de jeito alegre; e então,
> invisível, entrava nas casas dos conhecidos, passeava nos quartos e
> salas, e para divertir-se fazia estalar os forros do teto e os
> barrotes do chão, e também os trates novos, e os balaios de vime
> grosso; e se achava dependurada uma viola, fazia sonar o
> encordoamento, para alegrar-se com a lembrança das suas cantigas, de
> quando era vivo e cantava...
> 
> Outras vezes assobiava nas juntas das portas e janelas, espiando por
> elas os moradores da casa; e quando os homens, rodeavam a candeia,
> pitando, ou as crianças, brincando, ou as donas costuravam ou faziam
> nhanduti, o Generoso, — a alma dele, p’r’o caso — soprava
> devagarzinho sobre a chama da luz, fazendo-a requebrar-se e
> balançar-se, que para a sombra das cousas também mudar
> de estar quieta...
> 
> E muitas vezes — até o tempo do Farrapos —, quando se dançava o
> fandango nas estâncias ricas ou a chimarrita nos ranchos do
> pobrerio, o Generoso intrometia-se e sapateava também, sem ser
> visto; mas sentiam-lhe as pisadas, bem compassadas  no rufo das
> violas... e quando o cantador do baile era bom e pegava bem de
> ouvido, ouvia, e por ordem do Generoso repetia esta copla, que ficou
> conhecida como marca de estância antiga: sempre a mesma...
> 
> “Eu me chamo Generoso,
> “Morador em Pirapó:
> “Gosto muito de dançar
> “Co’as moças de paletó...”
> 
> .............................................................
> 
> *6*
> *Mãe mulita*
> 
> — O tatu, mais a mulita,
> — É lei da sua criação:
> — Sendo macho, não pode ter irmã;
> — Sendo fêmea, não pode ter irmão.
> _(Cancioneiro Guasca.)_
> 
> Este bicho foi mandado ficar assim desde que o rei dos judeus mandou
> matar duas mil crianças e a Virgem Maria fugiu para o Egito, para
> salvar o Menino Jesus, fugindo num carro pequeno,
> puxado por um burro petiço...
> 
> A certa altura do caminho a comitiva foi alcançada por uma comitiva
> do rei, com ordem de matar o Menino e algemar seus pais; porém Nossa
> Senhora, com os seus rogos e lágrimas conseguiu abrandar o centurião
> que comandava; e deu-lhe de presente, o burro.
> 
> Depois a Virgem Maria e S. José, com muito custo, lá foram
> empurrando o carro onde ia dormindo, muito sossegado, o Menino
> Jesus. E foram andando... andando... andando...
> 
> A escolta já ia seguir seu caminho, de volta, porém parou, porque o
> burro tinha-se empacado... Embalde o centurião chicoteou o animal;
> depois bateu-lhe com o pau da lança; depois com a bainha do espadão;
> nada!... o burro, sempre empacado!...
> 
> Os soldados todos, um por um, espancaram-no: o burro,
> sempre empacado!...
> 
> Todos os soldados juntos e ao mesmo tempo, espancaram-no; o burro
> sempre empacado!...
> 
> Então o centurião ficou furioso, dizendo-se enganado pela Virgem,
> que lhe dera tão ruim animal. E resolveu perseguir e prender os
> fugitivos, para seu castigo.
> 
> A Virgem e S. José não viram o que atrás deles se passava, somente
> ouviam o rumor das pancadas que os soldados davam no burro e as
> blasfêmias do centurião... E assustados, apuravam as forças,
> empurrando o carrinho.
> 
> Então o Menino Jesus acordou-se e teve fome; mas com muito cansaço e
> sofrimentos, o seio de Maria não apojou...
> 
> Ele chorava, de pesar... e o Menino pegou a chorar, de fome...
> 
> Nisto apareceu uma mulita e Nossa Senhora disse-lhe:
> 
> — Mulita, se tens filhos, dá-me uma gota do leite para o meu
> filho!...
> 
> E a mulita parou-se e deu a gota de leite; mas era muito pouco
> e o Menino continuou chorando, com fome...
> 
> Nossa Senhora chorou de pesar e tornou a dizer:
> 
> — Mulita, chama tuas filhas, para cada uma dar uma gota de leite
> para o meu filho!...
> 
> — Senhora Virgem, respondeu a mulita, minha ninhada é grande, porém
> nele as filhas são poucas...
> 
> E chamou as suas poucas filhas, e cada uma deu uma gota de leite
> para acalmar a fome do Menino, que calou-se, farto.
> 
> Depois cada mulitinha tomou seu rumo, no deserto; só ficou
> a mulita mãe, acompanhando.
> 
> Quando iam já muito longe, avistaram a escolta que vinha em
> sua perseguição; e à frente, ameaçador, o centurião!...
> 
> Então a Virgem, muito aflita, disse:
> 
> — Mulita, dá-me a tua força, para puxar o carro do meu filho!...
> 
> E a mulita puxou; mas era tão pouca sua força, que o carro quase
> nada adiantava.
> 
> E a escolta cada vez mais perto!...
> 
> E Nossa Senhora chorou, de medo, e tornou a dizer:
> 
> — Mulita, chama os teus filhos, para darem a sua força e correrem,
> puxando o carro do meu filho!...
> 
> — Senhora Virgem, respondeu a mulita, a minha ninhada é grande,
> porém nela os filhos são poucos...
> 
> E chamou os seus poucos filhos, que começaram a correr, puxando
> o carrinho, do Menino Jesus...
> 
> E a escolta cada vez mais perto!...
> 
> Mas o carro, agora puxado pelos filhos da mulita ia
> sempre andando depressa.
> 
> Mas os cavalos são maiores que as mulitas e por isso vencem mais
> terreno... e já a escolta estava perto... perto..., quando levantou-
> se um medonho temporal de areia, que obrigou e o centurião a
> dispersarem-se entre gritos de raiva...
> 
> Então, quando viram que o Menino estava salvo, cada mulitanho tomou
> seu rumo no deserto; só ficou a mulita mãe, acompanhando.
> 
> Então Nossa Senhora tornou a dizer:
> 
> — Mulita, em memória das gotas de leite das tuas filhas, em memória
> da força dos teus filhos, deste dia em diante, de cada vez que deres
> ninhada, será sempre ou só de fêmeas ou só de machos!...
> 
> E a mulita respondeu:
> 
> — Pois que assim seja a vossa vontade, Senhora Virgem! Porém eu
> peço que ordeneis que o mesmo seja para a minha boa comadre, a
> tatua...
> 
> — Pois será, também!
> 
> Então a mulita tomou seu rumo, no deserto, e foi levar a nova a sua
> comadre tatua, que ficou muito contente...*
> 
> * O argumento destas duas lendas — 5, 6 — está desenvolvido
> baseado na tradição longínqua, e é de notar a acomodação bizarra dos
> elementos do seu entrecho.
> 
> *7*
> *São Sepé*
> 
> “*Arroio	 S. Sepé* — no município de Caçapava; nasce a coxilha de
> Babiroquá e deságua no Vacacaí. *Deve o nome, que lhe foi posto
> pelos Jesuítas, ao célebre chefe índio José Tiaraiú, conhecido por
> Sepé*, vencido e morto na batalha de 7 de fevereiro de 1756, no sopé
> da Coxilha de Sta. Tecla, perto de Bagé.
> 
> Era à margem deste arroio que existia a sepultura do referido índio,
> indicada por uma grande cruz de madeira, com uma inscrição — *meio
> em latim, meio indiático* —, que quer dizer o seguinte:
> 
> † Em Nome de Todos os Santos †
> No ano de Cristo Jesus de 1756
> A 7 de Fevereiro
> morreu combatendo
> O grande chefe guarani Tiaraiú
> em um sábado santo
> † Subiu ao Céu dias antes do que †
> o grande chefe da taba do Uruguai que morreu
> em 10 de fevereiro em quarta-feira
> combatendo contra um exército
> de 15000 soldados.
> † Aqui enterrado †
> A 4 de Março
> mandou levantar-lhe esta cruz
> o padre D. Miguel
> Descansa em paz
> †
> 
> “Conforme a homenagem
> prestada pelos Jesuítas
> na inscrição e na
> denominação do arroio, e
> não havendo no calendário
> católico santo de nome —
> Sepé — temos de concluir
> que as virtudes, o mérito
> do grande chefe índio
> foram forais para a sua
> estranha — canonização —
> no entretanto perdurável e
> popularizada.
> 
> Foi sob tal aspecto que
> recordamos aqui este curioso fato
> ........................”
> _(Cancioneiro Guasca)_.
> 
> -------------------------------------------------------------
> 
> *O Lunar de Sepé*
> 
> Eram armas de Castela
> Que vinham do mar de além;
> De Portugal também vinham
> Dizendo, por nosso bem:
> Mas quem faz gemer a terra...
> Em nome da paz não vem!
> 
> Mandaram por serra acima
> Espantar os corações;
> Que os Reis Vizinhos queriam
> Acabar com as Missões,
> Entre espadas e mosquetes
> Entre lanças e canhões!...
> 
> Cheiravam as brancas flores
> Sobre os verdes laranjais;
> Trabalhavam-se na folha
> Que vem dos altos ervais;
> Comia-se das lavouras
> Da mandioca e milharais.
> 
> Ninguém a vida roubava
> Do semelhante cristão
> Nem a pobreza existia
> Que chorasse pelo pão;
> Jesus Cristo era contente
> E dava sua benção...
> 
> Por que vinha aquele mal,
> Se o pecado não havia?
> O tributo se pagava
> Se o vizo-rei pedia,
> E, até sangue  se mandava
> Na gente moça que ia...
> 
> Eram armas de Castela
> Que vinham do mar de além;
> De Portugal também vinham,
> Dizendo, por nosso bem:
> Mas quem faz gemer a terra...
> Em nome da paz não vem!
> 
> Os padres da encomenda
> Faziam sua missão:
> Batizando as criancinhas,
> E casando, por união,
> Os que juntavam os corpos
> Por força do coração...
> 
> Do sangue dum grão Cacique
> Nasceu um dia um menino,
> Trazendo um lunar na testa,
> Que era bem pequenino:
> Mas era — cruzeiro — feito
> Como um emblema divino!...
> 
> E aprendeu as letras feitas
> Pelos padres, na escritura;
> E tinha por penitência,
> Que a sua própria figura
> De dia, era igual às outras...
> E diferente, em noite escura!...
> 
> Diferente em noite escura,
> Pelo lunar do seu rosto,
> Que se tornava visível
> Apenas o sol era posto;
> Assim era — Tiaraiú —,
> Chamado — Sepé, — por gosto.
> 
> Eram armas de Castela
> Que vinham do mar de além;
> De Portugal também vinham
> Dizendo, por nosso bem:
> Mas quem faz gemer a terra...
> Em nome da paz não vem!
> 
> Cresceu em sabedoria
> E mando dos povos seus;
> Os padres o instruíram
> Para o serviço de Deus
> E conhecer a defesa
> Contra os males do ateus...
> 
> Era moço e vigoroso,
> E mui valente guerreiro:
> Sabia mandar manobras
> Ou no campo ou no terreiro;
> E na cruzada dos perigos
> Sempre andava de primeiro.
> 
> Das brutas escaramuças
> As artes e artimanhas
> Foi o grande Languiru
> Que lh’ensinou; e as façanhas,
> De enredar o inimigo
> Com o saber das aranhas...
> 
> E, tudo isto, aprendia;
> E tudo já melhorava,
> Sepé — Tiaraiú, chefe
> Que o Sete Povos mandava,
> Escutado pelos padres,
> Que cada qual consultava.
> 
> Eram armas de Castela
> Que vinham do mar de além;
> De Portugal também vinham
> Dizendo, por nosso bem:
> Mas quem faz gemer a terra...
> Em nome da paz não vem!
> 
> E quando a guerra chegou
> Por onde os Reis de além,
> O lunar do moço índio
> Brilhou de dia também,
> Para que os povos vissem
> Que Deus lhe queria bem...
> 
> Era a lomba da defesa,
> Nas coxilhas de I-bagé,
> Cacique muito matreiro
> Que nunca mudou de fé;
> Cavalo deu a ninguém...
> E a ninguém deixou de a pé...
> 
> Lançaram-se cavaleiros
> E infantes, com partazanas,
> Contra os Tapés defensores
> Do seu pomar e cabanas;
> A mortandade batia,
> Como ceifa de espadanas...
> 
> Couraças duras, de ferro,
> Davam abrigo à vida
> Dos muitos, que, assim fiados,
> Cercavam um só na lida!...
> Um só, que de flecha e arco,
> Entra na luta perdida...
> 
> Eram armas de Castela
> Que vinham do mar de além;
> De Portugal também vinham
> Dizendo, por nosso bem:
> Mas quem faz gemer a terra...
> Em nome da paz não vem!
> 
> Os mosquetes estrondeam
> Sobre a gente ignorada,
> Que, acima do seu espanto,
> Tem a vida decepada...;
> E colubrinas maiores
> Fazem maior matinada!...
> 
> Dócil gente, não receia,
> As iras de Portugal:
> Porque nunca houve lembrança
> De haver-lhe feito algum mal:
> Nunca manchara seu teto...;
> Nunca comera seu sal!...
> 
> E de Castela tampouco
> Esperava tal furor;
> Pois sendo seu soberano,
> Respeitara seu senhor;
> Já lhe dera ouro e sangue,
> E primazia e honor!...
> 
> A dor entrava nas suas carnes...
> Na alma, a negra tristeza,
> Dos guerreiros de Tiaraiú,
> Que pelejavam defesa,
> Porque o lunar divino
> Mandava aquela proeza...
> 
> Eram armas de Castela
> Que vinham do mar de além;
> De Portugal também vinham
> Dizendo, por nosso bem:
> Mas quem faz gemer a terra...
> Em nome da paz não vem!
> 
> E já rodavam ginetes
> Sobre os corpos dos infantes
> Das Sete Santas Missões,
> Que pareciam gigantes!...
> Na peleja tão sozinhos...
> Na morte tão confiantes!...
> 
> Mas, o lunar de Sepé
> Era o rastro procurado
> Pelos vassalos dos Reis,
> Que o haviam condenado:...
> Ficando o povo vencido...
> E seu haver... conquistado!
> 
> Então, Sepé, foi erguido
> Pela mão do Deus — Senhor,
> Que lhe marcara na testa
> O sinal do seu penhor!...
> O corpo ficou na terra...
> A alma, subiu em flor!...
> 
> E subindo para as nuvens,
> Mandou aos povos — benção!
> Que mandava o Céus — Senhor
> Por meio do seu clarão...
> E o — lunar — da sua testa
> Tomou no céu posição...
> 
> Eram armas de Castela
> Que vinham do mar de além;
> De Portugal também vinham
> Dizendo, por nosso bem:
> Mas quem faz gemer a terra...
> Em nome da paz não vem!
> 
> Esta melopéia (?), ouvi-a em 1902, sofrivelmente recitada por uma
> velhíssima mestiça — Maria Genoria Alves — moradora na picada que
> atravessa o rio Camaquã, entre os municípios de Cangussu
> e Encruzilhada.
> 
> Aparte as deturpações aberrantes dos vocábulos e a difícil
> colocação, concatenada dos versos, conservei a forma original,
> difusa, opaca e, do mesmo passo ingênua e amorável, dentro da qual
> porém, sente-se que estremece uma idealização, tendente a aureolar a
> figura do chefe índio, superiorizando-a por um signo misterioso — o
> lunar —, mandado divino...
> 
> Deixei de parte alguns versos cujo sentido disforme e expressão eram
> de impossível entendimento e acomodação neste grupo. Relembrança
> popular do heróico guarani é esta (e procedência?...) a única que
> até hoje hei encontrado em não pequena perambulação.
> 
> *8*
> *O Caapora*
> 
> É um espírito com forma de homem, gigante, peludo e muito tristonho,
> que comanda as varas de porcos do mato e anda sempre montado
> sobre um deles.
> 
> Quem topar com o Caapora daí em diante arrastará consigo a
> infelicidade (caiporismo), para todo o resto da sua vida;
> se era bom torna-se mau caçador, pescador; dará topadas no caminho,
> espinhar-se-á nas roçadas, perderá objetos,
> andará atrasado, apoquentado...
> 
> Os animais domesticados também sentem a sua má influência, e
> entecarão, terão gogo, sofrerão bicheiras... No entanto o Caapora
> protege a caça bravia dos matos.
> 
> *9*
> *O Curupira*
> 
> É o espírito malfazejo do mato, que enreda os trilhos do caminho
> para enganar os andantes e sugar-lhes o sangue.
> 
> Andam sempre em casal e moram no oco dos paus de lei; aparecem
> de repente, fazem os seus embustes e escondem-se, à tocaia,
> rindo-se em silêncio.
> 
> O Curupira é como um tapuio pequeno; tem os dentes verdes
> e os pés colocados às avessas.
> 
> Quando perseguido pelo curupira, o melhor meio de fugir-lhe é
> atirar-lhe e ir deixando pelo caminho cruzes e rodilhas de cipó,
> entrançadas; ele entretém-se a examinar o achado e a destrançá-lo,
> e enquanto isso, o perseguido escapa-se.
> 
> *10*
> *O Saci*
> 
> Era um  caboclinho, dum pé só, muito ágil, que saltava na garupa dos
> cavalos dos viajantes. Gostava das picadas e das encruzilhadas das
> estradas sombreadas. Outros diziam que o Saci, apenas era manco de
> um pé e tinha uma ferida em cada joelho; que usava um barrete feito
> das _marrequinhas_ (flores da corticeira), e que era ele que
> governava as moscas importunas, as mutucas, os mosquitos.
> 
> *11*
> *A Oiára*
> 
> “A Oiára — ou Mãe-d’água — é um demônio macho-fêmea dos rios. É um
> tapuio ou tapuia de rara beleza, morador do fundo dos rios ou lagos,
> e que fascina aquele que cai em seu poder, induzindo a pessoa
> fascinada a lançar-se n’água. O indivíduo fascinado pelas Oiáras, se
> não chega afogar-se, ao ser retirado da água, declara ter visto
> palácios encantados, no fundo do rio, tendo sido acompanhado nesse
> passeio por uma bela mulher (se é homem, e por dois
> belos tapuios se é mulher).
> 
> Ao voltar à terra as Oiáras o soltam e de novo vão para o rio, mas
> deixando em seu lugar pequenos tapuios para guardar o enfermo. Estes
> pequenos tapuios devem impedir que outros espíritos
> se apoderem da vítima.”
> 
> *12*
> *O Jurupari*
> 
> É um espírito mau, que à noite aperta a garganta das crianças e até
> dos homens, para trazer-lhes aflição e maus sonhos, principalmente
> por haverem comido muito antes de se deitarem. É ele que faz
> o _pesadelo_ nas criaturas.
> 
> *13*
> *O Lobisomem*
> 
> Diziam que eram homens que havendo tido relações com as suas
> comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de
> suas casas transformados em cachorro ou porco, e mordiam as pessoas
> que tais desonras encontravam; estas por sua vez ficavam sujeitas a
> transformarem-se em lobisomens...
> 
> *14*
> *A Mula sem cabeça*
> 
> Diziam que as mulheres de má vida, relacionadas com padres, se
> transformavam, tarde da noite, em mula, sem cabeça, e conduzindo na
> cauda um facho de fogo, que nenhum vento ou chuva apagava antes de
> romperem as barras do dia...
> 
> *15*
> 
> A lenda referente aos — enterros — (dinheiro, jóias, baixelas
> enterradas) tem a sua origem na crença das almas do outro mundo —
> os espíritos — “A alma de quem morreu sem deixar notícias do
> dinheiro que tinha escondido ou guardado em tal e tal lugar, anda
> penando. As luzes azuladas que se observam de noite nos campos e em
> redor das povoações, que volteiam e afinal se desvanecem,
> não são senão almas penadas.
> 
> “Só quando um cristão descobrir o — enterro — é que hão de cessar
> de  aparecer e de penar”
> 
> Se o — enterro — está da habitação ouve-se ruídos, pancadas,
> gemidos... são as casas — mal assombradas. —
> 
> ***
> 
> A lenda da — Lagoa brava — é apenas uma variante da dos Serros
> bravos e tem a sua contextura na da Oiára. A da lagoa do Iberá, bem
> como a dos salamanqueiros, do nhandu — tatá e outras, são mais do
> acervo rio-platense-andino.
> 
> ***
> 
> Há ainda, de formação local, muitas  _histórias_ ingenuíssimas e
> curiosas, tais como a dorme-dorme (ave vespertina); porque a pomba
> não sabe fazer seu ninho; porque a capivara é rabona (sem cauda); a
> do anu, ladrão do ninho alheio; a do João barreiro, e outras muitas,
> para adormecer crianças...*
> 
> * O argumento das lendas desta série — 8, 14 — consta do livro —
> Cancioneiro Guasca — do autor. (Edit. Echenique & C. — 1910) A sua
> versão e influência correram, aliás mui fracamente entre as gentes
> antigas da campanha rio-grandense.
>
> — *The I Ching (Yi King) — James Legge (Public Domain (Project Gutenberg))*

